sexta-feira, 31 de maio de 2019

CAOS

A liquidez do nosso tempo, em analogia a Bauman, expõe muito mais que relações frágeis. Expõe uma dose categórica de covardia. O amor, diz a Bíblia, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Amor, portanto, exige sacrifício, espera, escolha. Não o sacrifício da violência ou da submissão, mas o do crescimento a dois, o de saber dar um passo para trás quando o compasso do outro não permite estar no mesmo ritmo, o de saber acalmar, conduzir e serenar o peito agitado de quem fraqueja na própria fé. Não se trata de não arredar o pé por razão alguma, mas selecionar bem as razões pelas quais se vai embora. Lispector diria que o óbvio é a verdade mais difícil de enxergar. Pois bem, livremo-nos do ópio que tem dissuadido nossa razão: amar é decisão. E decisão só é tomada por quem sabe o que quer, coisa cada dia mais difícil de visualizar em uma sociedade de opções, aparências e loterias. Muitos querem abrigo na chuva, pouco estão dispostos a segurar um guarda-chuvas. Muitos pretendem o lucro sem estudar o preço do investimento. É assim que uma geração inteira se perde nos dividendos de sua própria inabilidade para viver: pressentindo que o caos ofertará amparo, quando na verdade o amor busca morada no peito de quem o escolhe como parceiro no grande recreio que é a vida.

EXATIDÃO

Não importa se você está no meio da multidão, no meio de uma refeição ou numa quinta-feira nublada. Quando o grande amor chegar, você saberá reconhecer. Talvez ele esteja de pé ao seu lado na fila do banco, talvez do outro lado do mundo, talvez você já o conheça, já o ame e se você é um desses está na categoria dos sortudos.

Bom mesmo é ter algo ou alguém que te tire o fôlego, a razão e a noção de tempo. Que chegue mais, que chegue sorrindo, que chegue logo. Assim, no meio de tudo, atravessando uma multidão, sua refeição ou uma quinta-feira nublada. Que tire os sapatos antes de entrar, pra não chegar lambuzando sua vida com a sujeira do passado. Que peça licença, que diga obrigada, que repouse tranquilo em seus braços.

Foi num desses becos que a gente passa na vida que aconteceu. Quando dei por mim já tinha mudado todas as coisas de lugar pra te dar todo o espaço no meu coração, pra te fazer caber no infinito mundano de cenas ridículas que eu tanto idealizava com alguém que tinha o perfil completo, dados pessoais e um pedaço enorme de mim, mas cuja identidade eu sequer conhecia. 

Quando você chegou, mansa e resignadamente, me vi sentada no chão do meu quarto sorrindo à toa, cena que a gente não vê todos os dias na vida de quem já passou da fase juvenil de criar borboletas em cativeiro no estômago. Eu tinha certeza que era você, uma daquelas certezas que só os que já passaram muitas noites de sábado deitados num sofá fazendo listas, preces e afogando as mágoas em um bom livro podem ter.

Meus olhos grandes moveram-se na perspectiva dos teus e desviaram em seguida por tantas vezes que não seria possível contabilizar nos dedos das mãos. Se os olhos falassem, os meus teriam disparado em ritmo tal que a boca jamais acompanharia. Quanto mais te vejo, mais descontente fico de voltar os olhos a outra coisa.

A verdade é que em algum lugar do mundo já anunciaram nosso amor em um outdoor, em algum lugar já sabiam de nós dois, como no ano novo que começa primeiro no Japão e chega pra gente como notícia requentada. Não somos mais novidade. Lá, nesse lugar onde o tempo repousa calmamente, tudo aconteceu primeiro, antes de acontecer aqui. E agora é como se vivêssemos a aura de uma familiaridade totalmente inédita, revestida pela total crença de que a ciência já havia nos descoberto, os tratados já haviam previsto, a órbita mudou para observar, o evangelho certamente anunciou.

Em uma esquina qualquer da vida, era você. E continuaria sendo por tantas outras, ainda que se pudesse pretender ignorar os sinais.

"Eu olhava esse menino com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo" - Guimarães Rosa




SANFONEIRO CEGO

Nem todos os acontecimentos referidos nos meus textos são fruto da realidade. Muitos, devo admitir, são mera suposição do meu inconsciente ou capricho do meu eu-lírico. Tenho sobre tais fatos licença poética. Posso pintar e bordar.

No caso de hoje, contudo, abro mão das firulas e dos lirismos para reproduzir a singeleza de uma situação que não merece enfeites.

Aqui no Nordeste já teve início a temporada de festejos juninos, uma das minhas épocas favoritas do ano. Basta sair na rua para sentir, além do friozinho característico (coisa rara para nós), o cheirinho das comidas típicas, a rua enfeitada de bandeirolas, os passos ritmados de dança, ao som, claro, de uma bela sanfona.

Pois bem. Fui a um arraial com duas amigas de longa data e tive um prazer que vai além de desfrutar da companhia delas. O trio que tocava e embalava os festejos da noite era composto por um sanfoneiro de mais idade, imagino que por volta de setenta anos.

Tocava com rapidez e precisão. Tinha ritmo e suavidade. Parecia feliz e entrou a madrugada com a disposição que nós, jovens em idade cronológica, não tínhamos a oferecer.

E, não bastasse, era cego.

A sanfona é um dos instrumentos mais difíceis de tocar. E aquele senhor tocava com a maestria de quem parecia dar de ombros à própria limitação. Tive a impressão de que se lhe arrancassem os braços, ainda assim descobriria outra forma de tocar.

Dizem que quando a corrente tem força, não importa quais obstáculos a natureza lhe imponha, o curso das águas alterará sua rota para chegar a seu destino.

Quando me dei conta disso, senti vergonha. Vergonha por sedimentar em pensamentos, palavras e gestos tantas limitações que sequer posso seguramente afirmar que tenho.

E devo dizer que poucos sentimentos são tão confrontantes como a vergonha. Bradshaw diz que ela nos faz dar conta de que somos finitos. E a finitude assombra o homem.

Na particularidade que encontrei naquele senhor assustou muito mais o que vi em mim. Dele me admirei, de mim tive dó. Afinal, ele é um senhor de idade cego, a quem a sociedade facilmente perdoaria se estivesse parado reclamando da própria condição. Era uma afronta ao conforto do meu mundo saber que ele não se conformava. 

Pensei rapidamente em todas as vezes que desisti.

E no alto do meu embaraço, desisti de desistir das coisas. Foi como se a falta de visão daquele homem aguçasse meus outros sentidos e me mostrasse, sem filtros, que eu posso esperar mais de mim.

Ou melhor: que às vezes é preciso parar de esperar. E (re)agir.


ORIGINARIAMENTE ESCRITO EM 2018.

sábado, 23 de março de 2019

PERTENÇA

Era tarde da noite e o relógio fazia maratona: corria feito doido, um ponteiro atrás do outro, incessantemente. Era assim sempre que estávamos juntos. Lá fora havia resquícios da chuva que amansou o dia e o início da noite, deixando no ar um frescor típico dos dias chuvosos, dos finais felizes e dos momentos em que o mocinho consegue se salvar do vilão nos filmes de ação.

Olhávamos nossos dedos da mão entrelaçados como quem faz uma promessa silenciosa que nunca será quebrada. Você me disse, sem pestanejar, que queria o pacote completo comigo e que isso incluía noites sem dormir, fosse por bons ou maus motivos. Entendi, pela primeira vez, o significado de sentir o coração parar por alguns instantes.

Eu havia andado perdida por muito tempo. Olhava para as relações ao redor sentindo o vazio de quem não encontra o que procura. Me sentia no fim das buscas por um livro raro desaparecido e pronta para desistir de determinar seu paradeiro. E por muito tempo achei que soubesse o que procurava. Foi quando descobri que o que eu procurava era apenas reflexo da insegurança que projetava nas relações e você veio, do jeito mais despretensioso possível, me mostrar que eu podia procurar mais.

Pestanejei. É difícil acreditar no começo. Difícil acreditar que alguém te queira na sua melhor versão, ainda que isso possa custar caro, ainda que possa te afastar. Crescer dói e envolve se desprender das roupas que não cabem mais no corpo. Algumas pessoas vão te pedir pra guardar essas roupas esperando que você volte um dia a caber em cada uma delas. Outras vão te incentivar a buscar novas formas, modelagens, cores que te favoreçam. É com estas últimas que você deve ficar - roupas e pessoas.

Não tardou a sentir que sua companhia melhorava a qualidade do meu tempo. Dessa vez eu não precisava de você como achava que precisava de outros caras em outros momentos. Eu sabia de todo o meu coração que não precisava de você. Eu apenas te queria por perto e isso era suficiente para me fazer concluir que ali havia o sentimento mais genuíno de pertencimento que eu já havia vivenciado.

Quando a gente precisa de alguém é como se em vez de 100% fôssemos apenas 70%, às vezes menos. E a outra pessoa fica responsável pela parcela restante, o que invariavelmente transfere para um estranho o encargo de proporcionar uma alegria que deveria ser genuína, orgânica. 

Você restaurou a minha crença. E acreditar, o mundo inteiro sabe, depende de muito mais do que  de simples boa vontade. Você me deu provas sem que eu sequer as tenha pedido. Você pousou a mão sob as minhas cicatrizes como quem pede perdão pelo que outra pessoa fez, como quem tenta subtrair para si a dor, como quem exerce autoridade pela defesa contra tudo que possa ferir novamente.

Sempre escrevi cartas de amor, você sabe, mas nunca como as que saem dos meus dedos quando o assunto é você. A indústria de cartões deixou de ver em mim uma cliente rentável porque agora é mais do que simples repetição de um clichê aleatório. Agora, como nunca, como se fosse preciso registrar, grito em folhas mudas que você reorganizou a baderna e o caos que eu havia feito na gaveta dos meus relacionamentos. Você retirou o amargo, o azedo, ressignificou o doce, deixou tudo colorido como decoração de carnaval.

Queria te dizer, amor, que vez ou outra me belisco, só para sentir concretude nisso tudo. Só para não deixar aparentar que algo tão bom é devaneio meu. É como se a dor do beliscão me situasse de volta no mundo que nos fez crer que só se aprende pela dor. 

Quanto a mim, digo e repito que venho aprendendo por doces e suaves parcelas de amor. E que torço e me empenho para que a fonte nunca se esgote. Quero aprender a gente a vida inteira. Quero amplificar para o mundo inteiro esse amor que de tão bom parece ter sido escrito diretamente por Deus.


segunda-feira, 4 de março de 2019

CONSELHOS

Dia desses li o conselho de uma mãe para o filho que dizia: não economize em colchões e sapatos, pois invariavelmente vai passar a maior parte da vida sob um deles.

Era o jeito lúdico dela de ensinar uma valiosa lição: cuide do que guardará sua consciência, para que nada se torne um peso diário antes do sono e cuide igualmente dos teus passos, para que não te conduzam a destino diverso daquele que havia idealizado para si.

Mãe quer poupar os filhos do sofrimento sobre coisas que a vida ensina, mas que ela crê que pode ensinar de um jeito mais brando, com cafuné na cabeça e ombro amigo. Mas a gente não esconde a teimosia em aceitar conselhos.

Depois não entende porque não consegue dormir a noite e levanta todos os dias descalço de um rumo.

domingo, 3 de março de 2019

Walden ou A vida nos Bosques, de Henry David Thoreau

CONTÉM SPOILER
Para ler ao som de: Chopin - Nocturne Op. 9, No 2.

Walden é uma narrativa descritiva sobre a vida de Thoreau afastado da civilização, modo de viver que escolheu e fez seu por dois anos e dois meses, em casa construída por suas próprias mãos, à beira de um lago estadunidense. Crendo que o modo de vida preconizado pelos homens parte de um erro e que passamos a vida em sereno desespero erroneamente encampado como se fosse mera resignação, Thoreau descreve a busca pela representação exata do que é viver somente com o essencial, em contato com a natureza e com os livros.

Thoreau propõe não só o alinhamento a um modo de vida simples e minimalista como também a propósitos espirituais e pessoais capazes de fazer o homem compreender o que de fato é vida e aniquilar tudo aquilo que apenas queremos fazer parecer que é. Em uma de suas célebres passagens, ele se refere à necessidade de sugar todo o tutano da vida, para que no momento da morte ninguém descubra que na verdade não viveu.

Lançado em 1854, Thoreau preocupou-se em fazer relatos descritivos de seu modo de vida, perpassando desde a localização geográfica até fauna, flora, subsistência, reflexões sobre a solidão e a natureza em geral e, ainda, respondendo a perguntas diversas que lhe foram feitas após seu retorno à civilização.

Thoreau inicia Walden fazendo algumas advertências ao leitor, sendo a primeira delas a de que o livro será conduzido em primeira pessoa, uma vez que ninguém poderia melhor expressar as vivências senão quem as propriamente ultrapassou. Trata-se, portanto, de uma narrativa autobiográfica, o que, devo dizer, torna a história ainda mais interessante e dá a sensação de pertencimento ao leitor.

Este livro soa utópico e irremediavelmente real, num grau quase físico de sentir e suportar. Critica duramente a vida alicerçada em luxos, por considera-los força incapaz de conduzir o homem à sabedoria, chegando a propor que são um obstáculo à própria elevação da humanidade.

Não bastasse, minha ligação com ele é quase umbilical. Trata-se, sem medo de errar, de um dos meus livros favoritos da vida, não à toa. Entre os meus lemas de vida estão algumas frases do movimento arcadista brasileiro e que remetem perfeitamente ao universo da obra: “fugere urbem”, em referência à fuga dos centros urbanos; “locus amoenus”, derivado da ideia de busca por um lugar ameno em detrimento dos excessos das monarquias; “carpe diem”, mandamento oriundo da ideia de aproveitar a vida ante da ciência de efemeridade do tempo e, por fim, “inutillia truncat”, cujo núcleo central é cortar os excessos e inutilidades, em uma verdadeira ode à simplicidade.

Além disso, Walden representa perfeitamente o universo daqueles que não se assemelham aos excessos de uma sociedade em que tudo é urgente, inflamável e polarizado. Coincidentemente ou não, muitos dos lemas transcendentalistas, movimento integrado por Thoreau, são representativos na obra, a exemplo do desapontamento com o modo de vida predominante, o idealismo, a apreciação pela natureza, etc.

O modo como o autor descreve a solidão também é vulgarmente próximo do meu ideal de que a exigência de convivência social é, muitas vezes, desprezível e enfadonha. A necessidade de falar o tempo inteiro, mesmo que pouco haja a se dizer, é marca fundamental de um tempo em que se sobrevive da imagem que se cria de si mesmo, projetada e irreal, milimetricamente pensada e enquadrada para fazer as pessoas parecerem melhores do que de fato são. 

Sobre a atmosfera do livro, se fosse atravessar os labirintos da imaginação e me transportar para um panorama ideal, seria similar à descrição de Walden: uma casa simples à beira de um lago, na qual pudesse desfrutar de prazeres simples, uma boa leitura, música clássica (Chopin, provavelmente) ao fundo em volume ambiente, luzes entrando e atravessando os móveis de madeira a ponto de deixar evidente a poeira de que reveste o próprio ar. O peso imaterial da solidão vivenciado pelo simples desejo de autoafirmação.

Considerado inspiração para movimentos de contracultura, Walden é uma obra imprescritível. Ouso dizer, aliás, que é mais atual do que nunca. Até parece que foi escrita para o nosso tempo.

Poucos livros apresentam tantas passagens em perspectiva como este. Encerro com a chancela de que o aprendizado constante é ferramenta de aprimoramento e dele faz parte, indissociavelmente, a própria ignorância, matéria fecunda para que o homem siga razoavelmente lúcido.

“Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina”.

sábado, 2 de março de 2019

RUN, TIME, RUN

O tempo, para quem já caduca, é algoz de todo dia. Sua marca é muito mais forte do que podem demonstrar os ponteiros presos à parede por décadas. O tempo é hospedeiro de dúvidas e questionamentos cíclicos, volta e meia responsáveis pela inquietude das pálpebras noite adentro. Aqui a gente olha para trás e vê uma estreita estrada de chão, sem sinalização, preenchida de fora a fora por pequenas pedrinhas que saltitam quando cruzam com nossos pés cansados. Para frente, vê-se que falta pouco, mas há tempo suficiente para percorrer uma longa jornada de reflexões: vivi o que pude? Se pudesse voltar hoje, repousaria minha cabeça sobre o ombro dela por mais tempo naquela tarde que passamos juntos a ver a lagoa? Se pudesse, escolheria passar o resto dos meus dias com ela, olhando a lagoa? Ou longe da lagoa - que no fim das contas era cheia de mosquitos -, mas com ela? É o ponto da vida em que a gente se pergunta quais pequenas decisões acabaram sendo as grandes decisões da vida. Quais delas nos afastaram e quais nos aproximaram de onde e de quem gostaríamos de ser.

Para quem já caduca, o tempo é um papel manchado a lágrimas, um borrão das anotações que a gente guarda na porta da geladeira para se deparar todos os dias: esqueça o que passou, há muito pouco restante para se lamentar.

Há, porém, um outro time: o daqueles para quem o tempo é promessa. Promessa, a gente sabe, é aquilo que se faz para cumprir no futuro. O tempo, para essas pessoas, é um futuro bem grande pela frente, que mal pode esperar a hora de começar. Os cinco segundos que antecedem a largada de um corredor são um misto de expectativa e insaciabilidade: poderia durar muito mais que cinco segundos mas nunca poderia passar de cinco segundos, senão não seria a mesma coisa. É assim que se sente quem está começando a trilhar o caminho, que, agora, não é estreito e pedregoso, mas pavimentado em via dupla e cheio de placas de alerta, pois o risco de imprudência é invariavelmente maior. Quem começa tem o gás do mundo inteiro para oferecer na largada e não mede esforços para estar próximo do impossível tanto quanto possível. Eles quase sempre não sabem para onde estão indo, mas sabem que a diferença entre possível e impossível é gramatical: basta retirar ou acrescentar um prefixo.

Em ambos os times, nem sempre se tem consciência e lucidez da passagem do tempo. Por vezes há apenas uma névoa anunciando que os dias estão passando, mas que não necessariamente empresta aos olhos a visão de que algo está escorrendo entre a rede que embala nossas vivências. É comum que a gente só se dê conta aos 78 anos, à beira do último suspiro, vendo o sol nascer o mesmo de todos os dias mas pela última vez, enquanto se dedilha um violão também pela última vez e quando as lágrimas anunciam que a consciência pode chegar tarde demais para quem nunca teve pressa. Há momentos na vida em que até os ateus aprendem a rezar, esse deve ser um deles.

Da próxima vez que ouvir o "tic-tac" do relógio, lembre-se de que o caminho, sinalizado ou não, tem um tempo para ser percorrido. E felizmente - ou não -, o tiro de largada já foi dado. É hora de correr.