sábado, 23 de abril de 2016

O que eu aprendi com Procurando Nemo, Dori e o enfezadinho do oceano

Observação nº 1: entenda o título aqui.
Observação nº 2: sim, eu continuo péssima com títulos




Tenho vivido dias de muita incerteza. Certos períodos são bem propícios ao surgimento de crises existenciais e creio que o final da faculdade é um deles. Não bastasse os questionamentos sobre o futuro, estabilidade e carreira, ainda há um turbilhão de perguntas sobre o que a vida tem representado.

Não sei se todo mundo passa por isso ou é mal de libriano, mas as vezes o coração fica do tamaninho de um amendoim e a gente se pergunta se está pronto pras reviravoltas que se anunciam.

Houve um tempo em que formar era apenas um ritual de passagem da responsabilidade estudantil para a vida profissional propriamente dita. Hoje, pelo menos na área que escolhi, formar pode representar vivenciar um hiato no qual sem resiliência não se avança. Ingressar de fato no mercado de trabalho pode demorar e, quando não demora, pode exigir uma dose extra de paciência para lidar com a fogueira de vaidades e o desfile de deuses, que a mim, em particular, não interessam.

É claro que todo mundo começa de baixo, e não é minha pretensão, aliás, ser grande coisa. Já me basta o aconchego de ser útil em algo que amo fazer, ser remunerada de forma justa e ter a chance de conceder aos meus conforto, saúde de qualidade e segurança e a mim a chance de viajar. Segundo uma reportagem na internet que listava características cruciais que definem se você será rico, eu não serei, especialmente porque gosto de estabilidade e zona de conforto. Que seja. Se aplica aqui o senso comum de que a gente perde a vida apenas tentando ganha-la.

Fato é que, resumindo, profissionalmente falando, não me importam os títulos de grande monta. Tenho consciência, pela minha própria posição a vida inteira, de que não é preciso estar sob os holofotes para fazer a diferença. É possível em qualquer lugar, sob quaisquer condições. O ser humano é o único com a incrível capacidade de, mesmo despido de bens, status, influência, dinheiro ou poder, conseguir fazer a diferença na vida de alguém.

Mas o caminho até o lugar que te permite respirar serenidade pode ser árduo e dar um baita frio na espinha. Eu sei, também, que não adianta espernear, o único jeito de chegar lá é "continue a nadar", mas confessar fraquezas já não me amedronta. E daí ter medo, não é mesmo? Dizem por aí que ele é um mecanismo de defesa indispensável à sobrevivência. O ponto aqui é não se deixar dominar por ele.

Comecei a questionar o caminho, os passos até aqui e os próximos que quero dar. As certezas se esvaíram na mesma fantasia juvenil de que a essa altura da vida já saberia todas as respostas. Eu sei que é só começo e que, talvez, quem sabe, não demore muito pra eu chegar lá, onde quer que "lá" seja, mas é natural imaginar a que lugares outras escolhas poderiam ter nos levado e como chegamos a esse tempo em que acertar é sempre uma obrigação.

Dia desses, enquanto colegas planejavam o próximo concurso público a prestar, eu me questionava seriamente sobre o porquê de ainda não ter ido conhecer os monges ou ver a aurora boreal, de não ter feito pelo menos uma das várias viagens que já planejei, de ter enfim consentido com um estilo de vida que talvez não me permita isso tão cedo, que adoece a tanta gente e que também tem me adoecido. Claro que, entre outros, falta grana, tempo, conseguir me virar melhor no idioma, mas e se também faltar coragem? É inevitável não pensar que a busca por estabilidade pode ser um reflexo da perda progressiva da minha capacidade de me aventurar no desconhecido. 

As vezes, só repito mentalmente que isso é uma fase, vai passar rápido, o melhor está por vir, ainda vou dar muita risada disso e todas essas coisas que a gente justifica pra livrar o foco do furacão. 

Nem eu sei muito bem aonde quero chegar com essa colcha de retalhos que virou esse texto, mas é meio o que tenho vivenciado mesmo: uma incapacidade talvez sem razão de conectar ideias lógicas, enxergar objetivamente o que quer que seja e definir resultados práticos.

Na dúvida, aprendamos com Dori: continue a nadar. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Vamos falar de coisas polêmicas

Feminismo é sempre um tema sensível, principalmente porque a palavra e a denominação acabaram ganhando uma conotação bastante negativa, o que acontece em qualquer movimento que fica mais conhecido pelo radicais que dele fazem parte do que por seus próprios ideais.

Dia desses li na internet uma mocinha falando que era feminista e achava um absurdo ter que limpar a casa, cuidar de coisas "historicamente reservadas à mulher". Dali em diante, dizia ela, só namoraria rapazes que tomassem conta das tarefas do lar de modo integral e ela não mais participaria, deixando, segundo ela, de ser "submissa aos padrões".

Me perguntei, mesmo sem querer, qual o problema de limpar sua própria casa, ou, inclusive, de seguir um padrão. Radicais costumam ser bem reacionários, só que essa reação muitas vezes não encontra respaldo em qualquer lógica e por isso os discursos vão se enfraquecendo aos poucos. É o caso.

Pelo jeito que a mocinha falou, parece que defender o direito da mulher de não limpar a casa é admitir que toda e qualquer tarefa do lar é degradante e, portanto, deve ser feita pelos homens, como que numa vingança barata pela dominação histórica sofrida no que diz respeito às tarefas domésticas. Porque mulher cuidar da casa em pleno século vinte e um é um absurdo, totalmente descabido.

Só que na verdade não é. Primeiro porque cada pessoa (e cada casal) funciona de um jeito, cada um tem suas preferências e pode ser que uma garota ame cuidar da própria casa e até prefira que o boy nem se aproxime de certas tarefas. Pode ser que funcione assim pra eles. Pode ser também que o casal divida as tarefas do lar, não necessariamente de modo estanque, mas no estilo "um ajuda o outro no que dá", deixando tudo nos conformes em meio à rotina de trabalho de cada um.

O que parece justificar uma discussão é, na verdade, aquela situação em que o homem (ou a mulher) não faz absolutamente nenhuma tarefa, não arca com as responsabilidades práticas de uma vida comum, sem qualquer razão aparente, apenas invocando como ponto de defesa o sexo, e tudo fica nas mãos da outra pessoa.

Entrou na moda um discurso de padrões femininos e de rechaçar certos comportamentos que, na prática, podem ser extremamente naturais pra muita gente e nenhum pouco reprováveis justamente pela naturalidade com que se verificam. A tal "dominação", por outro lado, nunca foi natural, mesmo quando era socialmente aceita. Tenho amigas que sentem prazer lavando louça, outras detestam afazeres domésticos em geral. E tudo bem. O cara também pode ter o direito de não gostar de lavar banheiros ou roupas, o que não é legal é dizer "toma, cuida de tudo só", saia essa fala da boca de um homem ou de uma mulher.

Então, minha gente, antes de qualquer coisa, é preciso pensar que no mundo cada um tem uma dinâmica que funciona pra si e um discurso reacionário sem qualquer fundamento lógico pra um determinado contexto não pode ser o estandarte de uma discussão tão árida. Se funciona pra alguém, ótimo.

Eu, por exemplo, adoro limpar meu quarto. Toda semana organizo, limpo, tiro as coisas do lugar, e não quero, por causa disso, ser vista como perpetuadora da cultura machista. O que o movimento feminista já conquistou até hoje tem um valor inestimável, mas é preciso ter cuidado pra não transformar tudo, até o que não era pra ser, num debate sobre o machismo.

Porque nem tudo é.




sábado, 16 de abril de 2016

TAG das 20 músicas

Vamos brincar de trivialidades? A internet anda em polvorosa com esse desafio musical, em que a pessoa responde uns itens sobre seu gosto e coisa e tal, então resolvi aderir à modinha por aqui.

01. Música favorita

Ser libriano é nascer com o poder absoluto de não conseguir classificar, em qualquer categoria que seja, alguma coisa como favorita. Considero essa questão sem resposta, que nem aquelas de trignonometria que eu não sabia fazer no ensino médio e simplesmente ignorava a existência. Próximo item. Obrigada, de nada.

02. Música que mais odeia

Esse é um ranking de favoritos às avessas, o que esbarra novamente na minha inaptidão de escolher, conforme item anterior. Além do mais, não sei se tem realmente alguma música que eu possa dizer que odeie a ponto de desclassificá-la na internet. Só posso dizer que odeio muito querer lembrar de uma música específica e não conseguir. Aí sim.

03. Música que te deixa triste

Evidentemente, preciso destacar alguma além daquela que usam no carro de som que anuncia falecimentos, né? Posso fazer uma lista das que me deixam triste, mas acredito que as três piores são Vento no Litoral, do Legião Urbana, Everybody Hurts, do REM e Hide and Seek, do Imogean Heap. Todas são sofrência nível Pablo do Arrocha, só que nem precisa de cachaça pra acompanhar, a melodia pura já dá conta do recado.

04. Música que te lembra alguém

Muitas músicas me lembram muitas pessoas. Difícil essa (que nem todas as outras #libriana), mas acho que vou de Bittersweet Symphony (certamente escrita errado, por motivos óbvios), do The Verve, e qualquer música do Linkin Park, todas em referência ao meu irmão, responsável pelo início do meu amadurecimento musical, ainda na adolescência.

05. Música que te deixa feliz

A hora em que eu mais me sinto feliz com uma música é quando ela se encaixa perfeitamente ao momento, na mais absoluta harmonia com todos os fatores presentes no ambiente. Isso é muito raro, eu sei, mas me lembro agora de já ter sentido isso com Velha e Louca, da Mallu Magalhães, então, sem pensar muito, escolho essa.

06. Música que te lembra de um momento específico

Todas que o Skank tocou no show que fez aqui na minha cidade há 6 anos atrás. Foi o meu primeiro show, que eu esperei morrendo de ansiedade e o momento onde o mundo parou de girar só um pouquinho pra fazer aquilo caber na minha memória.

07. Música que você sabe a letra inteira

Quase todas do Los Hermanos, dos Beatles, do Marcelo Jeneci, do Engenheiros do Hawaii, do Coldplay, de um bocado de outras bandas. E pode me chamar de coxinha. Podia tentar impressionar dizendo que sei a letra de trás pra frente de Faroeste Caboclo. Mas fugindo totalmente da ordem anterior, tenho cantado muito "Preciso Me Encontrar", do Cartola.

08. Música que te faz dançar

"Voltei, Recife", na voz de Alçeu Valença, e qualquer uma que me lembre o carnaval pernambucano.

09. Música que te ajuda a dormir

La valse d'amélie, do Yann Tiersen. Aliás, quase todas as músicas desse rapaz pro filme "O fabuloso destino de Amelie Poulain", meu favorito da vida. Recomendo.

10. Música que você gosta em segredo

Sem sombra de dúvidas e disparadamente, "Let it go", do Frozen. E aproveitando a onda de confissões, também já cantei no chuveiro e fingi ser princesa. Don't care.

11. Música com a qual você se identifica 

Duas músicas que sempre me fazem refletir e me identificar com os acontecimentos da vida são "A lista", do Oswaldo Montenegro e "It's my life", do Bon Jovi. 

12. Música que você cantava e agora odeia

Meus ódios são passageiros e, na verdade, sequer passam de abuso temporário. O abuso mais recente é "Sweet Child O' Mine", do Guns N' Roses. Conselho maroto: nunca coloquem uma música que vocês gostam como toque de celular.

13. Música do seu disco preferido

Não sei se tenho um disco favorito, mas tenho vários de que gosto muito. Escolhendo aleatoriamente entre os que me lembro agora, vou de "Dog days are over", da Florence and The Machine, que é do disco Lungs, e "The Funeral", de Band Of Horses, do álbum Everything All The Time.

14. Música que sabe tocar em algum instrumento

Nos tempos áureos de piano, eu adorava tocar as mais clássicas, basiconas mesmo, tipo Fur Elise, do Beethoven, o que não quer dizer que eu tocava bem. HAHAHA

15. Música que gostaria de cantar em público

Toda vez que me imagino no The Voice vem uma música diferente na cabeça, mas acho que Stand By Me, do Ben E. King, pra quebrar todos os vidros da galáxia de uma vez só. De música nacional, acho que Chão de Giz, do Zé Ramalho e Bandolins, do Oswaldo Montenegro.

16. Música que gosta de ouvir dirigindo

Por motivos de "não possuo carteira de motorista", vamos alterar o tópico para música que gosta de ouvir no busão: alguma do AC/DC ou The Smiths, no geral pra encobrir o barulho dos guris dos colégios que falam numa altura ensurdecedora.

17. Música da sua infância

Fora os clássicos Kelly Key, Sandy & Júnior, É o Tchan e Rouge, a música que mais me lembra minha infância é a do tema de Pokemon, aquela que tocava no gameboy yellow do meu irmão e que eu roubava dele pra jogar escondido. Se você não sabe qual é, vai um refresco aqui.

18. Músicas que ninguém imagina que você goste

Acho que Chop Suey!, do System of a Down, porque as pessoas julgam que garotas com aparência meiga não curtem uns trecos barulhentos.

19. Música que quer que toque no seu casamento

A única capaz, até hoje, de resumir o que pra mim significa o espírito de um casamento: In My Life, dos Beatles, claro. Amar tudo que passou, tudo que foi vivido, mas amar mais ainda o que está do seu lado. 

20. Música que quer que toque no seu funeral

Não penso no meu funeral como algo necessariamente choroso, então talvez as pessoas só estejam lá pensando no que vai ser agora. E eu começo por onde a estrada vai, que nem em "Primeiro Andar", do Los Hermanos. Um consolo pra quem fica e pra quem vai. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Aterrizar

Para ouvir ao som de: Ney Matogrosso - Poema

Eu sou uma pessoa que gosta de planejar, que gosta de imaginar situações caricatas, quase que arrancadas de filmes, e colocá-las como uma luva na minha vida. Sempre abracei o rótulo de quem vive demais no futuro com muito conforto, quase que desejando ser sempre assim. Fantasiar sempre foi meu carro chefe pra fugir da realidade tantas vezes agridoce.

Só que as vezes a vida gosta de dar um soco no nosso estômago, só pra ver se o reboliço mantém tudo no lugar. Por aqui, a vida tem mostrado como é fácil se perder de si, em qualquer esquina, em qualquer pensamento. De repente, a gente se questiona tudo o que já fez e viveu, ressaltando sempre as impropriedades de cada fase. Questiona as próprias escolhas, das mais lúcidas às mais vacilantes - estas, em especial, já conviviam com a dúvida antes mesmo de concebidas. Questiona o ritmo da própria respiração e que dores ela aponta, que significado ela tem, com ou sem alguém. Questiona os desejos, questiona pura e simplesmente se poderia ser mais feliz se tivesse escolhido outra casa, outra vida, outros hábitos, outra história, outro ritmo. Questiona o que pode fazer pra ser melhor.

Não é que questionar seja negativo, muito pelo contrário. É que nos acostumamos a viver de forma cômoda, automática, sem fazer maiores perguntas sobre o que quer que seja. Observamos calmamente a felicidade se esvair entre as frestas dos dedos, tão mansa, tão ali na nossa mão. Questionar é, então, a chance de descobrir que algo muito bom está na nossa mão ou que algo muito bom já caiu dela (ou, para os mais otimistas, que ela está vazia porque algo bem melhor está por vir).

No entanto, a visão permanece, na maioria esmagadora das vezes, turva o bastante para dificultar qualquer compreensão clara. Nessas horas o ser humano se apega a duas hastes de refúgio: o passado ou o futuro.

O passado gera angústia porque não pode voltar e consigo resgatar o que de bom se viveu. Por outro lado, caso resgatado, traria consigo também o que de não tão bom se viveu, o que nem sempre gera saldo positivo. O futuro, a seu passo, serve a uma ansiedade generalizada, que desconhece limites e que nos torna reféns eternos de algo que não se pode controlar. A inquietação não prescreve.

Eu sei que pode até parecer pretensão, ou um pouco de sabedoria barata de esquina, mas gosto sempre de me apoiar no que dizem os avós, os cartazes de poste de luz, os manuais de autoajuda, os bêbados da madrugada ou aquele amigo oráculo: o que é pra ser tem muita força, e é, independentemente de quando.

Se o passado é imutável e o futuro imprevisível, ao menos o presente embrulha num pacote bonito a esperança de poder ter uma vida diferente todos os dias, de fazer as escolhas certas, de entender que as entrelinhas do comodismo só serão mais interessantes que o resto da trama se a gente permitir.

Se todo mundo precisa de um guia, que o seu seja o nome numa lista de aprovados, o som do pulsar de um coração enquanto teu ouvido descansa manso no peito de alguém, o que te motiva a acordar todos os dias ou que te transporta, num momento de distração, pra algum lugar distante.

Mochila nas costas, a única certeza é a de que estamos só começando.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Prove que você não é um robô

Dia desses, circulando pela internet, dei de cara com uma caixa de autenticação me intimando a digitar os números escritos numa imagem. No alto da caixa, a seguinte mensagem: prove que você não é um robô. 3598271. Digitei. Apertei enter. A autenticação passou. Que os fogos iluminem os céus, não sou um robô.

Meu palpite não é certo, mas arrisco dizer que a vida em muito se robotizou. O bom dia robótico de todos os dias, as intermináveis filas de carros que perseguem o mesmo destino inerte de um trabalho tantas vezes infeliz, o amor indébito que repousa sobre a repetição concreta ao invés da poesia contínua, construída verso a verso.

A vida robotizou a ponto de nos retirar a permissão para enxergar além. A vida real não tem filtros, molduras, nuances de cor e efeito, revelação instantânea e redução de imperfeições. Quem somos nós, afinal, quando não somos mais nada? Quando estamos longe da vida que aparentamos ter? Quem somos nós quando o outro não está olhando? Será que agradecemos ao garçom ou ao cobrador do ônibus? Será que pedimos desculpas por tropeçar no sapato de alguém? Quem somos nós quando o felizes para sempre de 90 minutos chega ao fim e as cortinas se abrem? Quem somos nós quando não sabemos quem somos?

Os robôs certamente gostariam de se juntar a nós. Gostariam de um nascer do sol genuíno todos os dias, da visão em milhões de cores que nos permite olhar o outro, muitas vezes sem enxergar a fundo, é verdade, mas ainda assim olhar, apreciar. Os robôs certamente gostariam de achar bobas as propagandas de margarina ou ironizar os árbitros de futebol. Os robôs certamente gostariam de ouvir o vento soprar calmaria nos ouvidos ainda adormecidos pela fadiga dos discursos dos semideuses. Os robôs, creio eu, gostariam de sentir o sangue correndo pelas veias, sangue que corre, assim como o tempo, para algum lugar onde se perdem aos poucos, sem que percebamos.

Todo dia, no meio da selva de pedra que se tornou este mundo, precisamos provar que não somos robôs. Seja através de uma sequência numérica, seja exibindo o abate de um coração que não teve aço em sua composição, seja admitindo que a gasolina está no fim, repousando num abraço manso que não tá dá certeza da vida, mas pelo menos não te tira aquela pouca que você ainda tem. Todos os dias, é preciso vociferar com ímpeto: hão de me retirar tudo, menos a (c)alma.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O eclipse total da superlua

Percebi que depois dos 20 fica cada vez mais difícil puxar as memórias com detalhes, cores e nuances como fazia quando era criança. Dessa angústia surgiu a vontade de viver, registrar e catalogar o máximo de momentos, já que, como saudosista de carteirinha, pretendo deixar pros netinhos um bocado de lembrança bacana do que a gente viveu nesse tempo louco.

Pois bem, ontem teve eclipse total da superlua, fenômeno que os jornais fizeram questão de enfatizar: aconteceu pela última vez em 1982 e só voltará a acontecer em 2033. Não mudou nada nos impostos, na violência, nos conservantes, na corrupção, muito menos na situação dramática dos refugiados da Síria.

Mas, pelo menos em mim, reacendeu a consciência de que sou parte de uma natureza perfeita, que está além da minha compreensão e do meu entendimento e que tem o poder de fazer com que, mesmo nesse mundo cheio de coisa feia e doida, a gente acredite de novo em alguma coisa e não se desencante com o que é bom e do bem.

Alguém avisa pro Goku que uma esfera do dragão passou na minha janela ontem :)

Como é curiosa a vida que a gente não conhece e não alcança, como nos impulsiona a querer explorá-la em sua mais pura essência.

Quero um dia fotografar a aurora boreal, de preferência com mãos menos trêmulas e um bom tripé. De ontem, só restou um corpo cansado das posições malucas pra fazer o eclipse da superlua caber nos meus registros de vida, mas coube: meio trêmulo e sem gingado, 264 fotos depois, horas a fio, mas enquadrado direitinho nas lentes da câmera e da memória.

Fica decretado, então, que todo mundo deve sair pra ver a lua, os eclipses, as estrelas, pra tirar fotos, se aconchegar na sacada, na varanda ou no quintal, apoiar as crianças no colo e fazer ninho pra assistir a natureza brilhar em sua perfeição. Se não pela beleza, apenas pela gratidão imensa por fazer parte desse mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A vida tá de zoeira

Se o assunto é amor, dá um pulo no @coisasboasacontecem :)

Para ler ao som de: Nenhum de nós - Dança do tempo

Há algum tempo atrás eu simplesmente não me imaginava gastando um centavo no Subway. Algumas amigas que moram fora, quando vinham passar as férias na cidade, sempre intimavam, embora a mim não soasse convidativo montar um sanduíche confuso, num local cuja logística eu não compreendia e que ouvia o "pode esquentar?" da atendente como "pode pegar", fazendo com que eu acrescentasse cream cheese até comprometer o salário do resto do ano. Pois é, mas vocês vejam só como as coisas são: de dois meses pra cá, se eu fizer as contas, o sangue nas minhas veias se transformou em molho parmesão com azeite e nas minhas entranhas só há queijo, alface, azeitona e algum acompanhamento que geralmente é peito de peru ou frango.

A mesma coisa aconteceu com sushi, yakisoba e açaí: bastava existir um estabelecimento fornecendo esse tipo de comida para que eu fosse total e absolutamente indiferente e me questionasse nos momentos de reflexão filosófica o porquê de alguém dar, voluntaria e conscientemente, dinheiro em troca daquilo. Com a língua devidamente mordida, eis que hoje encolho o rabinho entre as pernas e saio pra comer nesses lugares toda felizinha.

Dia desses aconteceu também com um vestido que eu tinha guardado, nunca dava bola e que quando vesti me fez sentir como a própria Audrey Hepburn. Só consigo lembrar de um episódio de HIMYM em que o Ted fala de uma camisa que ele detestava e que, aparentemente do nada, o fez sentir sensacional, assim como o cavanhaque que ele julgava de um jeito e passou a adorar no visual.

Que estranha essa coisa de reciclar simpatias, ir buscar no lixo das nossas convicções coisas que a gente pode gostar de desgostar, pode querer colocar na estante de novo, ou no corpo, ou na alma. Afinal, a gente passa uma vida construindo certo e errado, legal e chato, bom e ruim, pra chegar alguma força cósmica e sem motivo algum revirar tudo, como quem diz "se vira pra colocar de volta no lugar".

Ao contrário das crianças, que sentem curiosidade por tudo, experimentam o máximo em termos de paladar, tato, audição, expandem os sentidos, a gente, que é supostamente adulto e deveria saber mais das coisas, vive engessado com conceitos e zonas de conforto que nem sabe de onde tirou, como não gostar da espuma do suco de abacaxi, de carros com bancos de couro, de gotículas que não escorrem com as outras na janela, de gente que não acredita em vida extraterrestre.

No que depender de mim, espero que esse processo de redescoberta esteja apenas começando e que me permita descer do pedestal dos preconceitos que construí por uma vida inteira, olhando pras coisas da vida de um jeito diferente, como que pela lente dos olhos alheios. Se a vista vier com molho parmesão então, só alegria.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Senta que lá vem textão

Iniciar esse texto me faz sentir como se tivesse de me apresentar para uma plateia inteira durante uma palestra muito íntima. Começaria dizendo olá, mas parece superficial e distante. Começo, então, pelo fim, pela exposição de motivos: as vezes a gente se decepciona com as pessoas, com alguém que leva consigo uma carga de expectativas muito forte e sem querer - ou não - deixa de corresponder de alguma forma ao ideal plantado e regado com afinco, fazendo florescer a decepção. Outras vezes, a gente se decepciona consigo, desaparece dentro de si, e sente em cada poro a pior das decepções, porque, oras, nós deveríamos ser quem mais nos agrada, guarda e afaga.

De um jeito meio torto e mau explicado, é isso. Acordei, olhei no espelho e me perguntei quando foi que eu desapareci em mim sem perceber. Vasculhei na mente cada momento. Será que foi naquele dia em que troquei de roupa antes de sair, por medo do que pudessem dizer de mim? Ou será que foi numa das várias vezes que pressionei a tecla apagar até ir embora tudo o que eu havia confessado de todo o coração numa página em branco porque tinha algo supostamente mais importante a fazer? Será que foi quando tomei a decisão - ainda que inconsciente - de tentar ser mais fiel aos outros que a mim?

Não sei responder a essas perguntas com um emblemático sim ou não, mas posso arriscar que cada metro percorrido lá atrás guardou um pouco de mim, um tanto que não deveria estar lá, mas na bagagens que trago comigo. Estranha essa sensação de se sentir visitante na própria casa, no próprio corpo, de não reconhecer mais as próprias escolhas. Você, aí do outro lado, se interroga sobre isso também?

Não sei se é o sentimento coletivo de uma geração perdida, mas a mim parece que o excesso de informação, ou talvez de opção, ou mesmo a pressão de ser alguém depressa, acabou por gerar uma produção em massa de pessoas cuja personalidade acaba cedendo espaço aos itens de série mais valorizados pelo mercado. Se você não é tão belo, tão esperto, tão engraçado, se você não tem algum talento capaz de te destacar de alguma forma, talvez não tenha lugar pra você nesse mundo.

Em busca de um tal talento e das promessas que ele carrega envolto em si, cedemos. Destacamos as nossas vontades, confissões e fidelidade, colocamos no descarte mais próximo e viramos a página para escrever o que parece mais atraente, prazeroso de se ver e ouvir, menos conflituoso e mais lucrativo aos olhos de quem nos observa.

Na prática isso implica, inevitavelmente, em abrir mão de si. Não nego que até certo ponto a própria vida em sociedade exija mudanças práticas de personalidade e posturas em cadeia. Por outro lado, não parece leal, tampouco racional, que a vida inteira se resuma a tornar o olhar dos outros sobre nós mais aprazível.

Agora que vocês foram devidamente introduzidos ao assunto, sentamos em roda e inicio a confissão: aos vinte e um, demonstro uma profunda inaptidão de reagir às inseguranças com que me defrontei e me fizeram perceber o quanto, nessa onda de ceder aqui e ali, deixei pra lá o que era importante. Ainda guardo penduradas as mesmas saias plissadas que me fazem sentir princesa, mesmo que não as leve mais pra passear porque "não condizem com a minha idade"; ainda guardo rascunhos de textos nunca publicados, ainda há fagulhas ardendo o desejo de ser mais fiel à mim.

Nesse misto de destempero e reviravoltas, tento enxergar com clareza uma solução capaz de me reconciliar com quem acredito ser. Por ora, visão turva.

A única conclusão que cheguei até agora - palmas, inclusive, pois uma libriana chegou a uma conclusão sobre alguma coisa - foi a de que vinha me restringindo a uma certa linguagem de vida um tanto quanto afastada do trivial, levando tudo muito a sério e ao pé da letra, perdendo saúde por quase nada e reclamando do excesso de conservantes nas embalagens de água de coco já no café da manhã.

Mudanças não se operam da noite para o dia, claro, caso contrário as listas de ano novo seriam líderes absolutas em eficácia, mas quero propor aqui, a mim e a quem mais se interesse, um exercício diário menos comprometido com tanta formalidade. Afinal, as conversas triviais, desinteressadas, as trocas amigáveis, os conselhos de estranhos, os detalhes do dia a dia, tudo faz parte de uma válvula de escape indispensável para a largura do sorriso. E que eu só pretendo maximizar.

Mais de um ano depois de um hiato não anunciado no blog e em dívida comigo mesma, volto pra cá deixando o chinelo na porta e com vontade de devolver ao meu cantinho a cara de lar: lugar que a gente cuida, faz moradia aquece o coração.

Não sei por quanto tempo, nem de que jeito, mas é caminhando que a gente descobre, então vem comigo que a gente chega lá. Mais cedo ou mais tarde, mas chega.

sábado, 17 de maio de 2014

Ligando os pontos



Portfolio | Saatchi Online
A vida em muito se assemelha a um jogo infantil de ligar os pontos. Se não me falha a memória, tratava-se de um dos jogos que mais me intrigava, que mais me fazia pensar. Afinal, se eu ligar o traço ao pontinho errado, o dinossauro imponente poderia virar um cogumelo feio e torto, sem lugar para corações saltitantes no meu deslumbre infantil.

Em bom português, a vida é bem isso: um jogo de ligar os pontos. Os pontos, que creio já virem predeterminados, são aqueles lugares onde o livre arbítrio não pontua, onde uma ordem de acontecimentos já é esperada, é como o destino que te espera na próxima parada.

Toda linha que sai de um ponto e se encaminha a outro ajuda a formar uma sucessão de micro-destinos.  O espaço entre um ponto e outro, entre um destino e outro, é o vácuo onde depositamos nossas escolhas. E estas escolhas, por sua vez, definem a forma que terá o nosso desenho. 

Este breve espaço, um suspiro de vida, é a encruzilhada da dúvida. De um dinossauro imponente, a vida pode se tornar sim um cogumelo feio e torto e tudo isso dependerá, inevitavelmente, de qual ponto você escolheu como próximo a ligar. O detalhe, entretanto, é só um: não lhe é facultado saber previamente que desenho poderá se formar a partir do próximo ponto escolhido. Tudo fica a cargo do próprio risco de escolher. Simples assim. Direto. Na carne.

Nós somos a linha. Nossas escolhas nos arrastam rumo a outros pontos. Nós temos o poder de finalizar o desenho ou de torná-lo uma unidade longe de qualquer rastro de coerência. É por isso que cada ponto é um porto: porque a linha que nos conduziu até ele fincou naquele local uma raiz, um pedacinho do que a gente traz no peito.

Talvez por isso as escolhas sejam tão emblemáticas: porque norteiam uma vida inteira, carregam nossa alma consigo. E talvez por isso acreditar no destino seja tão importante: porque a convicção é capaz de te conduzir ao próximo ponto. Ainda que para isso seja preciso voltar. Ainda que para isso seja preciso RECOMEÇAR.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Conta-gotas


Foto: Pinterest

Doses homeopáticas nos fazem crer que as coisas passam devagar, a começar pelos anos. Num conta-gotas, as doses parecem muito pequenas, tudo parece mais brando e aprazível do que de fato é. A ampulheta é um disfarce bobo do tempo, que nos faz olhar abismados com o rápido passar das horas, mas que não evidencia realmente o fato cruel: perdemos tempo. Quando nos tornamos conscientes de que perdemos, muito já se foi. Tal como a pia que pinga uma gota de cada vez, deixamos escorrer nossas aspirações. Tantas e tantas vezes, não nos damos conta do óbvio: o mesmo relógio que computa o tempo do nosso dia, resume, aos poucos, o que fazemos da vida. O espaço de 24 horas nos guarda, mesmo que joguemos muitas dúzias de minutos ao vento.

Num conta gotas, a realidade é suportável, porque de tão mansa, nos faz sentir que podemos tocá-la. E, mais ainda, transformá-la. Ledo engano gerado pela falsa expectativa que criamos de ter o poder para manipular a vida. Não manipulamos. Mas, com um caractere inquestionavelmente humano, persistimos.