A miudeza da menina gigante

by - agosto 24, 2010


Ela, menina na beira do mar, vestido de renda e alma entregue às ondas. Presa em sua própria liberdade, dona da brisa e dos dias ensolarados. Vivia apenas em função do amanhecer. Conhecia como a palma da mão todos os caminhos, todos os perigos, até descobrir o amor, talvez o maior deles. Não havia nada de tão extraordinário em sua vida, nada tão absurdamente fora do comum, assim como com qualquer um, ela também tinha segredos e chaves, muitas chaves para trancá-los. Manter-se longe de tudo que pudesse criar raízes e destruir seu espaço natural não era uma forma de evitar o amor, até porque, ele era algo que ela não conhecia, não havia provado seu mel e muito menos seu veneno.

Ali, não haviam certezas. Não haviam formas de prever as tempestades, nem faróis que guiassem os navegantes. Havia apenas uma menina e seu rosto calmo, que todos os dias, no pôr-do-sol sentava-se na areia para observar o fim de um ciclo. Não havia passado e tampouco futuro, talvez, para ela, não houvesse nem presente. Havia um tempo incólume, imerso dentro da própria imensidão e que não se permitia questionamentos – jamais.

As flores do campo eram colhidas todos os dias e levadas sempre para o mesmo lugar, perto do mar. Era alguma forma de agradecer à algo, alguém ou alguma força por mais um dia, mas elas sempre voltavam, como se a tal força quisesse dizer que o agradecimento não era merecido, que era ela quem deveria receber flores todos os dias. Não havia religião para castigar ninguém, não havia política para governar ninguém, não havia destruição, porque não havia ambição, soberba e rancor. Era um canto esquecido, estéril e ilimitado. Porém, infinito.

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2 comentários

  1. Que linda a parte das flores!!

    "era ela quem deveria receber flores todos os dias"

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  2. um dia estive num lugar assim, onde não havia nem o presente...
    beijo!

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Não vá embora sem deixar sua marca no meu universo.