Carro desgovernado

by - junho 26, 2011

     Sempre fui do tipo de garota que não consegue se desligar dos próprios pensamentos. Esteja eu sozinha ou no meio de uma multidão, eles continuam lá, falando mais alto, inúmeras vezes, que a minha própria voz. Dessa vez eu estava dentro do ônibus e observava os carros passando, com seus motoristas, sempre na mão correta, respeitando a sinalização. Até que, de repente, surge um carro desgovernado, em alta velocidade, que burla o sinal de trânsito e é extremamente julgado pelos outros motoristas, inclusive por nós.
     Pouco depois, ficamos sabendo que o motorista havia encontrado um garoto epilético e prestava socorro. A correria e a confusão se deviam ao fato de que o trânsito lento não deixava o motorista passar e chegar ao hospital a tempo de salvar o garoto. Todos ficaram chocados e envergonhados com os próprios julgamentos.
     Deu tudo certo, pelo menos até onde pudemos ver. Mas a partir daí, foram os meus pensamentos que entraram em choque. Olhando todos aqueles carros guiados por pessoas, imaginei cada um de nós como sendo um carro: vigiados, controlados e manipulados a todo instante. Andamos sem vontade própria, para destinos que, muitas vezes, não se encaixam no nosso roteiro de vida. Placas, sinaleiras e outras pessoas nos impõem limites constantemente, vivemos à beira de nós mesmos e expostos aos julgamentos alheios. Temos cores, modelos, marca, ano de fabricação, 4 pneus e valor de mercado, mas o coração e a alma não foram inclusos. Temos defeito de fabricação. Rasparam a nossa identidade e suprimiram as nossas escolhas. Aprendemos a nos submeter ao que a sociedade diz que é certo e alienar nosso desejos, paixões e fúrias de nós mesmos. E, no meio disso tudo, aparece alguém com coragem e ousadia o bastante para sair dos padrões, para revelar sua verdadeira face, para desrespeitosamente respeitar a vida. E essa pessoa é instintivamente julgada por todas as outras. E sabe porque? Porque todos nós somos carros desgovernados que, apesar de andar na linha em termos práticos, volta e meia, deixam-se levar por sentimentos autênticos e permissivos, na esperança de conseguir também alcançar os seus desejos mais íntimos.
     Percebo que os caminhos que conduzem os carros "bonzinhos" sempre os levam aos mesmos lugares. Por isso, talvez seja a hora de liberar o verdadeiro carro desgovernado dentro de nós e, finalmente, alcançar o nosso destino, destino esse que é determinado por nossas escolhas. E, que ironicamente, era a frase estampada na blusa do rapaz que dirigia o carro.

You May Also Like

3 comentários

  1. Que história!
    Esse limite invisível e tão tênue que é a nossa vida...poucos se arriscam ir um pouco mais adiante,preferem ficar julgando e apontando o dedo para condenar o desconhecido.
    Na verdade,estamos indo na contramão!

    Renata Cibelle
    *bjs

    ResponderExcluir
  2. Que sejamos então carros desgovernados, e que de uma forma "desrespeitosa" vamos respeitar a nosssa vida...
    Saudades do seu, do meu Universo...
    Tudo de bom Lari.
    Beijoos!!

    ResponderExcluir
  3. Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Entrelinhas. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





    Narroterapia:

    Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



    Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

    http://narroterapia.blogspot.com/

    ResponderExcluir

Não vá embora ainda. Divida algo comigo. E obrigada por chegar até aqui! :)