Roubando a cena

by - junho 15, 2011



      Lá estava ela, impávida e colossal, como é ou deveria ser o nosso país. Escondida atrás de tanta elegância e de um batom vermelhíssimo ofuscante, nem parecia ser a mesma garota que falava sobre sonhos, discórdias e intempéries na noite passada. Parecia mais uma gigante invencível sob seus 15 cm de puro poder. Mas como os sábios já diziam desde que o mundo é mundo: as aparências enganam. E como enganam. Qualquer outra pessoa que a visse julgaria sua imagem e sua personalidade como sendo a de uma mulher implacável, embora debaixo das máscaras e armaduras que usava pra encarar a vida, estivesse despida de toda e qualquer forma de ser fortaleza, alicerce. Ao contrário, era areia, vento. Possuía mais sonhos por cm² do seu corpo do que já se viu em qualquer outro ser humano. Era literalmente povoada, invadida por eles. Atrás daquele batom vermelho existia uma boca seca, que funcionava em compasso com o coração e parecia sempre clamar por um beijo apaixonado, não beijos de cinema, nem de novela ou de qualquer afim, mas beijos apaixonados, entregues, roubados. Com os pés no chão, livre do peso, ela caminhava sobre o mundo com firmeza e doçura, sem perder a delicadeza, a destreza ou a compostura. Até rimava, combinava nos mínimos detalhes, imaginem só.
      Ela parecia ser muita coisa, quando na verdade, ela era. Mas muita coisa diferente do que parecia. Diferente porque quando a gente acha que conhece uma pessoa, todas as suas faces, fases e regras, a gente descobre que sabe muito menos dela, muito menos de si e muito menos do mundo do que se podia imaginar. Poucas pessoas entregam o que são, confiam seus segredos e sua bula (tão repleta de contra-indicações) aos outros. O paraíso da gente é ter sempre um pouquinho de mistério guardado, é jamais entregar-se por inteiro, ser refém, escravo. Pelo menos era o que eu achava. Mas eu estava errada.
      Quem observava a garota do início desse texto sabia bem de quem se tratava. Sabia que mesmo cercada de moldes ela não conseguia encaixar-se a nada que tivesse formato circular, triangular, quadrangular ou qualquer outra forma já conhecida. Ela não cabia em si e não cabia no mundo. E alguém já sabia disso. Sabia porque a conhecia, sabia porque ela havia entregue à ele seu tesouro interior como forma de permitir um envolvimento afetivo intenso, um laço que não enfeita, um nó que não aperta, mas um coração que liberta. Um amor que também o faz, porque é assim que tem que ser.
      Compartilhavam assim, a moça e o seu alguém, o que eram, o que seriam e o que gostariam de ser. Compartilhavam as noites, as manhãs e as tardes, fossem elas gélidas, pálidas, secas ou febris. Compartilhavam os lençóis e uma xícara de café. Compartilhavam sonhos, paixões, beijos e poemas. Mas acima de tudo, compartilhavam um coração repleto de ternura, onde residiam desde sempre e para sempre juntos num só. Onde roubavam a cena e eram os protagonistas de uma trama muito real aos que nela viviam, mas muito utópica para os que somente assistiam. Trama esta que pode estar passando agora do nosso lado, pedindo pra ser protagonista com a gente, morar no nosso coração, dividir os tais beijos apaixonados e a gente fecha os olhos pra não ver. Trama esta que pode se chamar amor e que a gente acaba, como nas novelas, deixando tudo pro último capítulo.

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1 comentários

  1. "Poucas pessoas entregam o que são, confiam seus segredos e sua bula (tão repleta de contra-indicações) aos outros."
    Eu estava pensando nissO!Caramba!

    Sei muito bem desses disfarces que usamos para nos esconder até de nós mesmos!
    Tomara que a gente não deixe mesmo tudo para o último capítulo.
    *Tudo lindo aqui,sempre.Palavras afins*

    Renata Cibelle

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