Migalhas

by - julho 11, 2011

     Detesto mendigar atenção, implorar carinho, suportar demais os fardos alheios. Nasci com um defeito de fabricação terrível: me entrego. Se vier com pressa, jogando com o amor ou algo do tipo, vai conhecer a mulher mais áspera e bruta que há dentro de mim, mas experimente vir devagar, entregando amizade, preocupação, carinho e atenção. Eu me desarmo, me abro e mostro o que de bom há mim.
     O problema é que ninguém se importa mais em ser sutil, em cativar o outro como na história do Pequeno Príncipe. Ninguém quer saber desse papo de passar a existir devagar dentro de outra pessoa, o que todo mundo quer é um sentimento imediato, instantâneo, amor estilo miojo. Assim não dá, não tem coração que suporte. Essas relações semi-prontas são uma forma horrenda de banalizar o amor, como se ele fosse uma mercadoria pronta pra ser negociada com cantadinhas de pedreiro. Relações que não se baseiam no respeito, na compreensão e no carinho, mas na exposição, na supervalorização e na superficialidade. Vejo garotinhas de doze ou treze anos se lamentando por relacionamentos que acabaram em traição, por acharem que jamais conhecerão o cara certo. Enquanto isso, lembro de mim quando pequena, nessa mesma idade, brincando de boneca e contanto quantos dias faltavam pro dia das crianças ou pro parque chegar na cidade.
     As novas gerações estão experimentando uma rapidez tão grande no fluxo emocional que acabam alienando sua infância por uma maturidade cada dia mais precoce. E a gente, jovens-não-tão-jovens, passa a viver numa realidade paralela à própria vida, onde o futuro é muito distante, o passado, muito inatingível e o presente, insatisfatório e fugaz. 
     O que eu quero dizer com isso tudo é que, talvez, a gente esteja vivendo de migalhas, se contentando com o pouco que os outros tentam nos oferecer, com algo que a gente cresceu sabendo que não era o suficiente, que é sub-nutrição de amor, com relações vazias, pessoas vazias, carência afetiva, ausência demais pra presença de menos. A gente é capaz de construir relações sólidas em qualquer instância emocional e a gente não pode abdicar disso. A gente não pode se abrir pra essa superexposição da vida e fragilização do coração. Se a gente se importa, é preciso aprender que quando se trata de emoção, tudo ainda é muito pouco.

You May Also Like

1 comentários

  1. Ainda é muito pouco,migalhas mesmo.A verdadeira conquista,aos poucos é tão rara...Quando isso raramente acontece,a gente se prende por vontade.
    Porém,tudo que é imediato demais,também vai embora rapidamente.
    É isso mesmo Lari,a banalidade do sentimento é cada vez maior. :(

    Renata Cibelle
    **bjs mil!

    ResponderExcluir

Obrigada por chegar até aqui. Não vá embora sem dividir algo comigo.