A idade da realidade

by - setembro 09, 2011

      Ontem quando eu fui dormir tinha 8 anos, um ursinho grudado comigo pra me proteger da chuva, uma meia dúzia de preces pra que o sol voltasse e me deixasse brincar na rua e nenhuma ilusão besta de querer crescer, adultescer. Mas aí, como num passe de mágica feito pelas bruxas dos meus pesadelos, hoje de manhã acordei com mais que o dobro de primaveras, mil preocupações na cabeça, mil indagações diferentes, sem tempo pra olhar o tempo lá fora ou reparar em quem me protegia durante a noite. Até as preces, antes tão frequentes e crédulas, acordaram amassadas e bordadas de ceticismo.
     Fico me perguntando em que parte da noite eu adultesci, em que parte a vida me roubou minhas expectativas e os meus grandes sonhos de ser princesa-bailarina-astronauta com meias coloridas e maria chiquinha. Hoje eu tenho sonhos, expectativas, mas todas recheadas de realidade, uma coisa tão chata, tão sem-sal. Hoje eu quero terminar a faculdade, trabalhar onde eu desejo, ter um salário que me proporcione uma vida confortável, um cara bacan pra amar, uma paz no coração, menos celulite, fazer exercícios, espantar a preguiça, comer verduras... 
        Nada de princesa, minha coroa ficou guardada no baú da infância. 
      Nada de bailarina, mas os pés cansados e machucados, esses sim, estão aqui. 
        Nada de astronauta, mas a cabeça continua no mundo da lua.
     A realidade embrutece muito a gente, arranca de nós a parte mais doce e fraternal, a cereja do bolo, o último brigadeiro da festa. A realidade nos obriga a sair no meio do show sem saber se vamos receber aplausos ou vaias. A realidade, essa danada, se prende aos nossos dedos, à nossa cabeça e àos nossos pés e, com o nosso consentimento ou não, vai nos carregando, nos empurrando, aos trancos e barrancos, até um tal lugar que ninguém sabe bem onde é ou o que é.
     Por isso, meus amigos, é que digo a vocês: realidade é bom quando te deixa com os pés no chão e a cabeça nas núvens, mas quando põe ambos à prova, é melhor diminuir a dose e respeitar um pouco a criança que grita dentro de você pedindo pra ser fiel à si mesmo. 
    Noite passada, antes de dormir, deixei de cumprir um importante ritual: o de espantar os monstros embaixo da cama. Acho que foi assim que a realidade chegou e me atacou no meio da noite, me sucumbiu e me levou junto com ela. Por isso, não deixem de futucar no guarda-roupa, embaixo da cama, dentro dos seus preconceitos, conceitos, da sua mente, do seu corpo e da sua vida qualquer monstro parecido com a realidade. Qualquer monstro que te leve pra longe daquilo que você sempre quis ser. E se isso acontecer, eu espero que seja um pesadelo, que você acorde no meio da madrugada, sorria e pense: "já passou" e volte a dormir um sono tranquilo de quem deseja ser astronauta, bailarina, bombeiro, super-herói ou, simplesmente, livre.

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8 comentários

  1. Larissa, que texto lindo amada.
    Cheio de um encanto precioso.

    Beijinho
    Fernanda

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  2. eu tava sumida daqui... voce como sempre me emocionando com seus textos

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  3. Porque nada descreveria tão bem você e este seu recanto encantado:

    "Me explica, que às vezes tenho medo. Deixo de ter, como agora, quando o vento cessa e o sol volta a bater nos verdes. Mesmo sem compreender, quero continuar aqui onde está constantemente amanhecendo."
    Caio Fernando Abreu

    *Ana,tuas palavras mudam o meu dia!Os sonhos mais doces estão aqui,e é lindo pensar que cada sentimento lindo vem de você.

    Beijo escritora!

    Renata

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  4. Quando criança eu só pensava em crescer também e hoje, de quando em vez, sinto uma pontinha de arrependimento por ter sido tão apressada.

    Um beijo.

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  5. To passando para pedir uma ajudinha passar aqui: http://theattitudeincluded.blogspot.com/2011/09/votacoes-concurso-blog-vs-blog-2.html é votar em "dreamer", tem também lá link de outrso blogs menina má... sera a soma de todos os votos se puder votar em todos agraderei muito, mas votando em um também estarei já feliz!bom pedindo desculpas por qualquer coisa, mas bem, se puder dar uma força ficaria muito grata!
    Deus abençoe

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  6. Parabéns! Adorei seu texto, e seu blog enteiro!
    beijos @may_felomeno

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  7. No espaço de tempo enquanto os olhos piscavam, também cresci... E até agora não descobri se isso foi bom ou ruim...

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Obrigada por chegar até aqui. Não vá embora sem dividir algo comigo.