Sobre amor, diferenças e quebra-cabeças

by - julho 29, 2012




Dizem que idealizar alguém é ruim porque te cerca de ilusões e te afasta da realidade que é a imperfeição de cada um, mas sabe, acho quase impossível não idealizar. No fundo, a gente sempre sabe do que gosta ou do que não gosta e tenta ao máximo manter longe ou perto aquilo que se encaixa nesses parâmetros. Podem escapar exceções? Claro, sempre. Mas a regra é positivo aproxima positivo, negativo aproxima negativo e os opostos se distraem. Pois é, é assim que eu penso.
É claro que jamais está descartado gostar de alguém completamente diferente, mas acredito que a diferença só seja interessante e excitante no início - ou quando ela não é conflitante. Imaginem, por exemplo, quando eu quiser ouvir Pearl Jam na maior altura, de cabelo preso, enquanto pinto as unhas dos pés numa sexta à tarde e me delicio só de saber que tenho a companhia de alguém pra não fazer ou dizer absolutamente nada. Ele, por outro lado, querendo ouvir Exaltasamba enquanto exibe seu carro ou sua namorada pela cidade, ou assiste a um programa qualquer e reclama do tédio que é não ter nenhuma coisa "interessante" pra fazer. No início, por ser uma novidade, uma situação 0km, a gente podia até se divertir, sei lá, tentando se moldar ao jeito um do outro, porque relacionamento é isso, a gente vai se encaixando feito peça de quebra-cabeça. O problema está em quando a gente, ao invés de acrescentar uma parte pra se encaixar no outro, acaba tendo que cortar uma parte da gente pra virar a peça perfeita. 
Aos poucos, a novidade e a tentativa de se tornar a peça perfeita vão se tornando cansativas e uma constatação é inevitável: peças perfeitas não existem, mas é muito mais fácil se adequar a uma semelhante do que a uma completamente diferente de você.
E aí minha peça "perfeita" vai ser um diferente conciliável, um diferente bonito. Ele vai querer viajar comigo, vai adorar aqueles mapas que eu tenho na parede com as etiquetas dos lugares a conhecer, vai achar um charme quando aquele fio de cabelo cai sobre o meu rosto enquanto eu tento assoprar de volta, vai entender que videogame, silêncio ou simplesmente não fazer nada podem ser programas muito mais interessantes que desfilar por aí a vaidade de quem não tem nada demais a mostrar; vai saber que eu nunca vou conseguir carregar a travessa de lasanha quente sem causar algum desastre de grandes proporções, vai saber que em 90% do tempo o que eu mais espero é um abraço e saber que eu tenho alguém por perto em quem confiar, ter a segurança que eu não tenho por si só. Vai saber que meus passos são mais firmes quando ele está por perto e que se o chão se abrir a gente pode cair dançando e vai estar tudo bem. Vai saber quando meus olhos pedem paz e quando os maremotos são inevitáveis, vai conhecer os meus defeitos, partes que não fazem sentido, a minha ansiedade e minha momentânea fome de bebê dinossauro, minha expectativa quando espero por algo que gosto, minha mania de mudar os móveis de lugar, meu amor pela chuva, por papéis de bilhete coloridos, por churros e cartelas de adesivos que nunca serão usadas. Vai saber que no frio minhas mãos e pés ficam geladas, meu corpo silenciosamente pede companhia e o despertador sempre esquece de tocar. Vai saber que eu detesto o formato da minha orelha, mas que acho lindo quando ele coloca o cabelo pra trás e me beija na testa como quem não se importa com mais nada. Vai pegar firme na minha mão e me conduzir pro destino que a gente vai construir e trilhar juntos, sempre assim: um se encaixando ao outro, mas sempre se somando. Peças perfeitas não existem e meu quebra-cabeça não vai ficar completo com a peça perfeita, mas com a peça certa.

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1 comentários

  1. Ai que saudades estava dos seus post!!!
    Aproveitando para a matar a saudade!!
    Bjus
    avidamudaeutambem.blogspot.com.br

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Obrigada por chegar até aqui. Não vá embora sem dividir algo comigo.