Destinatário: você

by - agosto 02, 2012




O livro na cabeceira com o óculos fechado por cima denuncia: você está ali. Está também nos dedos que rolam sob a borda da xícara enquanto o café esfria e na roupa dobrada sob a cadeira. Antes que eu me esqueça, você também está num daqueles inúmeros papéis coloridos na geladeira com mensagens bobas e no perfume cítrico que paira pelo ar nas manhãs de domingo. Você está no conforto que existe no meu mundo, e agora está também na dor. 
Quando alguém parte, mesmo que não seja fisicamente pra longe, mas emocionalmente, a gente guarda detalhes e os repete por um tempo até se dar conta de que nunca foram nossos; ou, em hipóteses mais graves - e me incluo nessa - a gente incorpora os hábitos e passa a lembrar do outro cada vez que os executa. 
Sabe, mil coisas me lembram você, daquele mesmo jeito bobo e despretensioso. Na caixa que você levou, foram-se todos os objetos presenteados, cartas, fotos e camisas azuis, mas tudo o que você representa ficou aqui, guardado numa caixa protegida, do lado esquerdo do meu peito. Agora minha casa é toda fria sem aquelas nossas fotos fazendo careta na viagem do interior, e por alguns momentos, achei que a ausência do porta-retrato retiraria a lembrança, mas não, ela, ao contrário, intensificou. As memórias continuam aqui, só que agora resta a percepção da ausência, a sensação de que falta alguma coisa, a consciência de que algo precisa ser colocado no espaço vazio da estante e que esse algo não vai ser aquela nossa foto.
Eu sei que daqui há algum tempo vai dar pra olhar isso tudo com ternura, sorrir com as lembranças, passar batido pela estante vazia ou esquecer que o livro na cabeceira com o óculos fechado por cima é um hábito completamente seu, mas agora, hoje, nesse exato momento, me dói saber o tanto de você que ficou em mim. E pergunto se a recíproca é verdadeira.
A dor do término tem sido para mim chata de sair como uma mancha de açaí numa blusa branca, e não saber se sua blusa também está manchada só faz a minha mancha crescer mais ainda. Esquisito né? Mas é exatamente assim que eu me sinto. 
De qualquer forma, pra todos os fatores, antes de terminar mais uma carta, não custa nada tentar te lembrar do que tu pareces ter esquecido há certo tempo: criar esperanças nos outros é a pior forma de machucá-los, de evitar que sigam em frente, mesmo com a estante vazia. E por último, meu bem, o livro continua ao lado da cabeceira e caso tenha esquecido, ele intitula-se: Volto pra te amar. E o óculos também tá aqui, caso tu precise enxergar a verdade que tá na cara.

Não demora. E se demorar, não repara na porta trancada. Da frente e do coração.
Até mais.

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1 comentários

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