Sobre caminhadas e passos inacabados

by - março 26, 2013

Não tenho medo de olhar para trás e lembrar de fraturas expostas, de me arrepender ou de perceber que saí do tom. Eu tenho medo é de dar passos incabados. Isso mesmo. Passos que a gente dá no escuro, no auge do desespero que dá quando a gente se vê sendo o que não é, o que nunca quis ser.
O que faz medo de verdade é o monstro da vida gritando bem alto no seu ouvido um silêncio absurdo que parece dizer tudo. Com respostas escorregadias, seguimos para a mesma vida, para os mesmos caminhos, espinho, escolhas e, no fim do dia, colecionamos rotinas. Batemos cartão, andamos pra lá e pra cá, pedimos o mesmo café e sorrimos duas vezes ao dar bom dia no trabalho. Cada ato é milimetricamente planejado pelo nosso cérebro que, vejam só, pensa. A gente até esquece disso de vez em quando né? A gente se deixa abalar pelo monstro do cotidiano, que entre empurrões e socos, além de um olho roxo e uma postura cansada, nos dá uma baita dor de cotovelo, aquela dor que nos faz acreditar que assim tá bom e que é arriscado demais tentar mudar alguma coisa. Aquela dor que nos faz convencer a si próprios de que pensar é quase um crime, um pecado capital.
E aí, nesse confronto diário contra as próprias insurgências, a gente vira escravo do que se torna sem querer. A gente deixa de lado os sonhos e aspirações juvenis, que nos traziam um ar tão idealista. A gente deixa de lado o livro que sempre quis ler, o filme novo que está em cartaz e as ideias revolucionárias de quem conhece o mundo por uma janela muito pequena, mas que tem uma alma gigantesca.
E então, bate uma saudade de ser quem a gente era sem querer. Aquela pessoa escondida entre os lençois e as armaduras, mas que trazia o mundo dentro de si, guardado a sete chaves e punhais, num universo paralelo, mágico, lúdico, onde sempre cabia mais um punhado de alegria e um abraço sincero.
Por isso, me dá tanto medo os tais passos inacabados. Vai que num desses passos a gente cai com tudo no buraco onde mora quem a gente não quer ser. A gente faz o quê? Chora? Grita? Esperneia? Não, não dá. Porque dar um passo inacabado foi fruto de uma inconsequente, mas absolutamente racional, escolha.

E é por isso que é tão importante dar passos firmes. Porque são eles que nos orientam e nos guiam para o caminho mais satisfatório de caminhar e de ser descoberto: o caminho que nos leva a nós mesmos.

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