Sobre a superestimada segurança

by - abril 07, 2013

 

Antes de atravessar a rua, olhei para os dois lados. Assenti com a cabeça para mim mesma, como quem diz que essa é a hora certa para atravessar. Não era. Fui atropelada pelos meus maiores medos, que invisíveis e velozes chocaram-se contra mim da forma mais violenta possível.

Gostaria de fazer parecer que foi um choque poético, mas não foi. Foi mais um daqueles momentos de encruzilhada, onde você se perde e nunca mais se encontra, onde as luzes dos postes e farois de carros te cegam e te tiram do controle por alguns segundos.

Entre mortos e feridos, estava o meu coração. Estava tudo o que eu sentia e sabia a respeito de mim, da vida e do amor. A batida foi fatal. Não gerou alívio, não gerou paz de espírito. Intensificou as ruínas, cutucou lá no fundo o que havia adormecido brutalmente dentro de mim. À tona veio a angústia, uma sensação de estar sem fôlego, de ter perdido um pedaço vital do corpo.

Eu olhei para os dois lados. Me certifiquei de que era seguro. E veja só, não era. A segurança é uma ilusão estéril que a gente procura no cotidiano para nos fazer sentir que estamos no controle. E não estamos. Não há segurança, por isso todos se angustiam. E a consciência disso nos faz perder ainda mais as rédeas da situação.

Se não conhecemos a segurança, como podemos passá-la para alguém? Como podemos nós, por meio da mentira, criar a segurança e entregar de presente a outrem? Como?

A resposta é muito simples...
Uma mentira só se torna verdade quando alguém acredita nela.

E você, caro leitor, acredita na segurança tanto quanto eu. Mas, talvez, diferente de mim, não saiba aceitar a insegurança. Você tem o desejo mais do que natural de ter garantias, porque a evolução humana nos ensinou, através de todas as formas de poder, que a gente só é alguma coisa se algo ou alguém nos garante isso. E as vezes nem assim. A Constituição nos garante segurança, em suas mais variadas formas, então vem cá, você não devia se sentir seguro? Seu parceiro(a) te diz que te ama, você não deveria estar seguro?

Você apenas corre de um lado para o outro, de um jeito torto e desnorteado, buscando nas palavras ou na conduta de alguém, algo que te faça sentir seguro. Algo que te leve para a cama numa noite fria com a certeza de que não está só. Mas ninguém pode te dar essa certeza. Porque ninguém tem essa certeza.

A segurança está no time do Coelhinho da Páscoa e do Papai Noel. Só que, ao contrário destes, a ilusão dela não acaba na infância. Talvez ela tenha só começado. E talvez não acabe nunca.



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1 comentários

Obrigada por chegar até aqui. Não vá embora sem dividir algo comigo.