Impiedosa tempestade

by - junho 15, 2013

"Só uso a palavra para compor os meus silêncios." 
Manoel de Barros, in "O apanhador de desperdícios"


O silêncio corroendo o peito é como uma metástase irrefreável. Em pouco tempo, toma conta do corpo inteiro e as palavras só conseguem escapar pelos dedos, numa fuga emergencial para dizer o indizível, para pedir socorro pelo que não conseguem expressar presas.

Hoje alguma coisa no céu anunciou que não seria só mais um dia. Seria um dia de preces, de estômago se revirando, de garganta fechada. Hoje o horizonte escuro foi só o prelúdio de um maremoto interno. Até os mais experientes marinheiros desconfiariam da tempestade, temeriam os raios que caíam sem piedade sob um tímido barco a navegar. Lá, qualquer grito ecoaria sem razão, alcançando nada mais do que o vazio. Lá, pedir socorro era inutilmente tentar salvar-se da própria ruína, era lutar em vão com forças já esgotadas. 

Sem mais resistências, barricadas ou trincheiras, considero essa guerra finda. Quem ganhou ou perdeu, no fim das contas, tanto faz. O que viveu e morreu ficou no silêncio confidente e profundo da tempestade, no olho do furacão que esvaiu-se devagar. Como é previsível da raça humana, só das bonanzas se quer ter notícia. Que assim seja.

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