Lirismo dominical

by - junho 09, 2013

Foto: Pinterest

Quando volto meus olhos ao redor, em busca de uma certeza à qual possa me agarrar, a ventania corrói meus sentidos. A poeira, a neblina, o fogo, tudo se inflama. E, diante da natureza revoltosa, me calo. Permaneço estática, admirando as flores de plástico que sabem tão bem o que fazer.

Sempre que me aproximo da resposta certa, as alternativas mudam e se embaralham, como num jogo cruel, onde não me é permitido acertar. Nessa brincadeira, perco por todos os lados.

Alguns dias enxergo mais claro que o sol. Vejo num par de olhos o brilho certo para refletir os meus. Noutros, o céu nublado e a escuridão assombrosa me fazem duvidar de mim. As manchetes de jornais entregam as minhas desconfianças, mas parece haver, de alguma forma, um lugar sempre recheado de verdades que não precisam ser expostas. E ficam firmes me encarando, elas, as inseguranças. Quem dera fossem infundadas, poderia eu livrar-me delas apenas com a indiferença. No entanto, para o meu desconsolo, elas não estão ali por acaso. Elas não dizem o que dizem sem embasamento. Elas se armam contra esse meu lado sempre inclinado a acreditar. 

Nessa batalha travada todos os dias, raramente saio vencedora. Acumulo, pelo contrário, muito mais derrotas. Perco para mim mesma e para o mundo, porque cada queda é um recato maior, um fechar-se, um voltar-se para os únicos terrenos aos quais posso pisar com segurança, embora não com estabilidade: os meus terrenos, as pontes entre meus neurônios e um coração pulsante, entre as mãos trêmulas e as esperanças postas ao chão.

Quando insisto que chegou a hora, que a borboleta pode sair do casulo e abrir suas asas, novamente, a natureza me acanha. Novamente, com seu ar sábio e altivo, me diz que o risco de tropeçar é maior do que o meu poder de voar. Tropeçar no vento, cair no vazio, rolar no escuro. 

Assombro-me, revolto-me, verto lágrimas que também não me dizem nada; ao contrário, ainda me expõem a fragilidade, face disforme que ouso esconder com tanto afinco. Espalho-me pelo ar e quando recolho-me não sobra nada. O que fui já não existe, o que sou é findo, porque já não há pelo que inspirar. O ar contamina, sufoca, apavora. O que serei então, se hoje não sou nada? 

Sucumbi ao temor de não saber e deixei que ele me apavorasse.  Nada mais covarde, nada mais previsível, nada mais perverso contra si próprio. Ao olhar-me no espelho, a sentença: autossabotagem clássica. 

Para os outros, escolha. Para si própria, encruzilhada, caminho sem rota. E nessa de não saber, sentou-se no caminho para contar lirismos, na tentativa de clarear o horizonte. Bobagem, a tempestade ainda não havia nem começado.

Talvez seja essa sensibilidade excessiva.
Ou talvez as nuvens não tenham por que mentir.

Adendo:
Fui dormir pensando: é, algumas verdades fazem todo o resto parecer mentira.

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