Sobre avanços progressivos e crescer com coerência

by - julho 22, 2013


Meu quarto assistiu de perto as minhas mudanças. As prateleiras, antes ocupadas por bonecas e panelinhas deram lugar a livros grossos, frios e pesados. Imponentes, com suas capas duras e escuras, sorriem ironicamente do lugar que ocupam: enterram o passado. 

As paredes observam tristes mais uma substituição: os desenhos feitos com giz de cera e lápis de cor, sem contornos e formas específicas, deram lugar a algumas poucas fotos de momentos que não vão mais voltar. E de pessoas que não vão mais voltar. É um pedaço do passado preservado em papel de fotografia, é um grito no meio da selva que é crescer. É o jeito de dizer ao espelho que, mesmo que ele diga o contrário, eu ainda sou um pouco do que fui: aquela garotinha sonhadora, idealista, que pintava seu próprio universo com cores saídas diretamente do báu da pop art escondido na ponta da sua varinha de condão.

A cama carregava sonhos, hoje carrega dúvidas. A consciência leve, hoje afunda o travesseiro. Nossas omissões pesam toneladas, quem diria. O rapaz que te pediu uma moeda na rua, a senhora com dificuldades de locomoção que andava sozinha, a criança que trabalhava ao invés de brincar: todos subprodutos da omissão. A criança que brincava de boneca e tinha varinha de condão colorida jamais se omitiria diante disso. Onde foi parar a coragem? Foi também soterrada pelos livros pesados, que parecem dizer muito e não ensinar nada? O conhecimento é paralisante, já ouvi dizer várias vezes. Mas a gente nunca sabe o quanto até se ver ignorando a si mesmo (aqui, um puxão de orelhas da garotinha que eu fui).

De volta ao quarto, as cortinas eram de um rosa cintilante daqueles de goma de mascar, dava até gosto de olhar todos os dias. Mas, como não era pra menos, chegou a tal da hora de amadurecer. E hoje são amarelas, assim com as paredes, que já não são mais coloridas e nem me divertem com seus milhões de corações cor-de-rosa. Amarelo é o novo preto, dizem. E só concordo por preguiça de discordar. Os corações se foram, porque é leviano e "imaturo demais para a idade".

Ah, e tinha uma penteadeira - adivinhem só, também cor-de-rosa - que me enchia os olhos. Sentava e ficava horas diante dela, penteando os cabelos e me sentindo algum tipo de princesa saída de um conto de fadas qualquer. Eu não tinha sapatinhos de cristal ou príncipes encantados, mas se você me perguntar hoje, algumas mudanças se mostraram a bruxa má da minha história nada encantada. O final feliz ainda espero, porque ao menos o consolo de não estar perto do fim devo ter. O rompante de esperança diário: saber que talvez ainda haja tempo para reverter tanta incoerência.

Os tapetes coloridos no chão, as mochilas e lancheiras largadas, os brinquedos espalhados, o meu mundo inteiro veio ao chão e não porque caiu da minha mão, mas porque fugiu do meu entendimento. Na queda, inúmeras esperanças se quebraram. Ilusões, também. Infantis, embriagantes, levaram dos meus olhos o brilho de quem olhava pela janela e via um horizonte de pura luz se abrir todos os dias, mesmo nos mais nublados.

Entro no quarto hoje e ele grita o que sou, embora não mais me reconheça ali, embora não veja semelhança alguma com o que sou, mas apenas com o que pareço ter me tornado. É como se todo mundo fosse uma caixa e a gente tivesse, desde pequeninos, que aprender a ser caixa também. Daí a gente vai crescendo, se moldando para parecer ser caixa. O manual diz que para ser caixa a gente precisa ter um tipo de corpo, um tipo de trabalho, fazer faculdade, ficar horas num escritório qualquer, não ser leviano com as responsabilidades. O manual diz como a gente deve falar e que dizer o que a gente sente nem sempre é legal, porque as pessoas gostam do que não têm. O manual diz que a gente não pode sair do padrão, porque o padrão é ser caixa e quem não é caixa não é lá muita coisa. Durante algum tempo a gente pensa que ser caixa é o máximo, que é tudo que alguém gostaria de ser; até que, num dos passos dados, a gente tropeça e entorta uma das abas da caixa. Então a luz entra e a gente fica encantado: descobre que não quer mais ser caixa, a gente quer mesmo é não ter forma, se moldar ao vento, ao sabor da própria vontade, tão ou mais legítima que qualquer manual bobo.

Entrei no quarto, olhei e me senti numa caixa. Deveria me orgulhar disso, mas não: estava presa, sufocada. Resolvi mudar a decoração, porque não quero mais nada que me prenda ao universo condenado que é ter os passos todos guiados por um manual qualquer, por uma receita pronta que faz o resultado final ser igual a tudo que já foi visto.

Talvez meu resultado final não venha a ser muito diferente do tom, mas olha, vai ser todinho meu: construído com meus passos lentos, densos, firmes. MEUS. Vai ser fiel, porque vai respeitar o meu ritmo. E minhas marcas vão ficar na areia. Ainda que só da minha praia.

Ah, e os corações estão voltando.
Não só na parede.


Adendo:

Duas outras perspectivas únicas da relação de inclusão da personalidade no universo comum e do processo bastante doloroso que é encontrar o próprio lugar. E em forma de música. Deliciem-se:




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