Le passage de l'enfance

by - outubro 07, 2013

Foto: Pinterest

 Se fechar os olhos alguns instantes, sou capaz de jurar que tenho 9 anos novamente e estou sentada entre meio mundo de bonecas e um catálogo infindável de histórias. Retiradas, claro, de uma fértil imaginação, onde contas, atrasos, cobranças e problemas não costumavam fixar moradia. Essas pequenas mentes eram o terreno do amanhã, o futuro da nação, conforme ouvi diversas vezes enquanto tinha minhas bochechas levemente beliscadas.

O futuro que eu conhecia era apenas o intervalo entre o agora e a próxima vez de perguntar "mãe, já estamos chegando? vai demorar muito?". Não, não demorou, passou voando. E olha só pro hoje, que não quer nem saber se a sua cicatriz no joelho foi de uma queda durante uma corrida na sua primeira bicicleta. O hoje não quer saber sobre as guerras de almofada, aventuras com piratas, personagens lúdicos que passeavam pela sua cabeça pelos simples prazer de existir. Existir. Esse verbo que parece definir o que se tornou a vida depois que os chapéus coloridos e apitos mágicos foram substituídos por livros pesados e responsabilidades mais ainda.

 A criança, aos poucos, foi sendo sufocada, empurrada, porque, afinal, "aqui não é lugar de criança". Também já ouvi que não viemos ao mundo de brincadeira. E só agora, depois de "grande", eu entendo: é por isso que a gente não vai a lugar algum. Porque o intervalo entre duas cerâmicas deixou de ser uma amarelinha. Porque uma cadeira de rodinhas deixou de ser o melhor parque da galáxia. Porque o colo da mãe deixou de ser o porto seguro. Porque tomar banho de chuva deixou de ser escolha e passou a ser obrigação dos dias em que precisamos voltar exaustos para casa, lavando o pouco de dignidade que restou da criança que fomos e que nos observa ir embora.

Quem dera tivéssemos vindo ao mundo de brincadeira. Os muros não seriam tão mortos, assim como os abraços e apertos de mão. Os dias não seriam tão mórbidos, como os programas da televisão. Quem dera todo dia fosse uma tela do Romero Britto, ou, talvez, um dos nossos desenhos da segunda série. A vida parecia muito mais feliz por lá, entre aqueles bonequinhos de palito, de mãos dadas, com um sol sob suas cabeças, uma casinha de portas vermelhas e árvores ao redor. Lá, a vida não era uma obrigação, acordar não era deprimente e dormir não era alívio e gritar não era em vão. Foi para lá que as cores fugiram. 

Entre os prédios, carros e fuligem acinzentados, só restou cor em um lugar: nos sorrisos. Amarelados, claro. No mais, permanece aquela mesma amostra grátis de ser humano, provavelmente um serzinho barrigudo, franzino, cheio de energia e com um corte de cabelo arredondado, acenando para quem você é hoje. E você, que é do futuro e que deveria ter todas as respostas, deveria ter entendido o porque de tudo e ter perdido a ânsia por chegar logo ao destino, deixa que as lágrimas encontrem o chão. O mesmo chão em que seus pés descalços fizeram festa. Mas não as mesmas lágrimas caídas após uma sessão interminável de cócegas na barriga.

Só então, encaramos os fatos. Não sabemos nada. Não somos nada. Não chegamos ao fim. Somos um breve intervalo entre o arco-íris e o pote de ouro, somos as propagandas que não cativam, os produtos que não vendem, as histórias que não rendem. Somos o subterfúgio da angústia, da ansiedade, do medo de viver, de ser assaltado e do pânico pelos impostos que só aumentam.

Nesse dia 12, viva o dia dos únicos que compreendem a vida pela ótica mais singela, mas também mais pura: as crianças. Vire-se para o espelho e diga olá para quem você foi, e que pode permanecer sendo transfigurado no seu batom lilás ou naquela blusa divertida de um super herói corajoso. Que ao menos neste momento sejamos corajosos o suficiente para nos despir da fantasia de adultos. Porque, ao contrário do que nos ensinaram a vida inteira, nós, sim, deveríamos ter vindo ao mundo só de brincadeira.

Já passou a época de pintar o sete. Mas, lembrem-se: não é à toa que existe um infinito de números logo depois. Ainda há muito o que colorir. Aponte sua cabeça para emanar cor, mesmo que isso desaponte quem só sabe escrever a vida em tons de cinza.

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