Um passo para o lado de fora

by - outubro 26, 2013

Foto: Pinterest

De frente para o espelho, sabemos reconhecer nossa imagem. É quase irracional dizer que alguém não sabe dizer quem é olhando para si mesmo refletido. No entanto, às vezes, ser irracional é tão humano que, vejam só, é possível que nos enganemos com o acreditamos ver ou ser.

É preciso dar um passo para o lado de fora de nós mesmos de vez em quando. De lá, a gente percebe o quanto se acomoda com certas coisas, a ponto de jamais perceber a influência delas na nossa vida. Se você parar para perceber, guarda roupas que não usa, papéis antigos de que não precisa, objetos que não funcionam, coisas das quais não gosta. Tudo isso é energia acumulada, que nos impede de encarar uma renovação constante, de purificar os ares que respiramos. Mas, olhando agora, superficialmente, talvez você não reconheça nada disso.

Experimente então abrir todas as gavetas, analisar tudo com calma e atenção. Você vai perceber que guarda muito mais do que deveria. Provavelmente, vai perceber o quanto acumula e o quanto tudo que acumula deixa de acrescentar significado ao que você é.

Aquele pedaço de papel antigo, no qual alguém te escreveu um bilhete perguntando sobre a atividade de geografia, está guardado numa caixa há mais de 6 anos. O que ele diz sobre você? O que te acrescenta? Em que te faz melhor?

Certas coisas não têm razão de ser. Existem apenas para dar suporte à nossa mente, que acha que precisa guardar provas de tudo, de cada momento, como que numa tentativa vã de lembrar de tudo. A gente precisa o tempo todo provar pra si mesmo que viveu, guardando tralhas e amontoando-as nas estantes que deveriam estar desocupadas, anunciando espaço livre e pronto para receber as glórias vindas.

Isso não significa que devemos nos desfazer de quem fomos, tampouco de quem somos. O que se deve perceber é que nenhuma roupa antiga nos afirma, nenhum bilhete velho nos determina. Isso nos compõe, o que é bem diferente. Somamos ao que somos aquilo que fomos, mas não necessariamente isto determina aquilo.

Experimente dar um passo para fora de si e observar-se sob uma ótica alheia. É provável que perceba um pesar sob os ombros, fruto de pesos carregados desnecessariamente. A viagem que fazemos ao longo da vida, percorrendo tantas estradas, não nos cobra extensas bagagens físicas. Ao contrário, devemos carregar muito dentro de nós. E carregamos. Por mais que ora não saibamos determinar de qual momento ou experiência derivou aquela lição, o mais importante já foi verificado: a lição existe. É ela que acrescenta.

Olhando de fora, percebi o quanto impedi as energias renovadoras do mundo de circularem em mim. Amontoei, ao longo do tempo, tudo aquilo que eu achava que provava para mim mesma quem eu era: aprovações, músicas, pessoas, lugares, papeis, roupas. Descobri, então, que nós não precisamos nos provar. A vida é a maior prova de si mesma. Me livrei de tudo e, de fato, não permaneci a mesma. Ao mesmo tempo, não perdi nada. O que mudou? Descobri que não preciso ser sempre a mesma, carregar as mesmas tralhas e exibir as mesmas medalhas. No entanto, não descobri do que preciso. Sei ao menos que, a partir de agora, as prateleiras estão desocupadas para receber o novo. 

Só então, quando ele chegar, decidirei o novo passo. Se para fora novamente, ou, finalmente, para dentro de mim mesma. Seja qual for, permanecerei caminhando.




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