Ruídos mentais

by - janeiro 01, 2014

parasoling dandelion
Foto: Pinterest
Há dias em que o silêncio grita. Entre vogais e consoantes, mede o tamanho da minha saudade. Perfura-me inutilmente, pois não percebe que já estou partida. De cima, onde tudo lá embaixo parece pequeno demais, só a minha dor parece grande. Só o meu pesar parece pesar.

Dizer adeus em vão é entregar o barco à tempestade, ainda que sabendo do horizonte pleno esperando logo ali na frente. Dizer adeus ao que se ama é destrancar a porta que guarda acalentadas todas as suas seguranças, nomeadas e etiquetadas, como que numa tentativa absurda de classificar o que te prende ao chão. A cabeça cheia também grita, sempre que percebe que não é nada entre tantas outras cabeças. E atravessa a multidão fervilhando, mas guardando para si o que é.

A linha tênue entre a saudade e o amor é imaginária. Não há divisão, não há limite, ambas se confundem e uma  bebe da outra. Sentir falta é, pois, por tabela, amar uma situação, uma coisa, alguém. Amar ainda mais aquilo que ali não está. Todo amor é saudade. Então, todo amor remete ao passado. Ou ao futuro, porque é possível sentir saudade do que ainda vai ser vivido. E mais ainda ao presente, esse tempo remoto e lívido, que escorre entre as nossas crenças, nos fazendo ajoelhar aos céus clamando pela sua continuidade. O mais cruel de todos é o presente, que escapa toda vez que alguém pensa nele. Que é sempre indisponível, fugaz, etéreo. Que tem sempre cheiro de passado e gosto de adeus.

Tudo é saudade nessa vida.
E, ai meu Deus, não me repreende se eu disser que tudo também é amor.

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