Senta que lá vem textão

by - setembro 21, 2015

Iniciar esse texto me faz sentir como se tivesse de me apresentar para uma plateia inteira durante uma palestra muito íntima. Começaria dizendo olá, mas parece superficial e distante. Começo, então, pelo fim, pela exposição de motivos: as vezes a gente se decepciona com as pessoas, com alguém que leva consigo uma carga de expectativas muito forte e sem querer - ou não - deixa de corresponder de alguma forma ao ideal plantado e regado com afinco, fazendo florescer a decepção. Outras vezes, a gente se decepciona consigo, desaparece dentro de si, e sente em cada poro a pior das decepções, porque, oras, nós deveríamos ser quem mais nos agrada, guarda e afaga.

De um jeito meio torto e mau explicado, é isso. Acordei, olhei no espelho e me perguntei quando foi que eu desapareci em mim sem perceber. Vasculhei na mente cada momento. Será que foi naquele dia em que troquei de roupa antes de sair, por medo do que pudessem dizer de mim? Ou será que foi numa das várias vezes que pressionei a tecla apagar até ir embora tudo o que eu havia confessado de todo o coração numa página em branco porque tinha algo supostamente mais importante a fazer? Será que foi quando tomei a decisão - ainda que inconsciente - de tentar ser mais fiel aos outros que a mim?

Não sei responder a essas perguntas com um emblemático sim ou não, mas posso arriscar que cada metro percorrido lá atrás guardou um pouco de mim, um tanto que não deveria estar lá, mas na bagagens que trago comigo. Estranha essa sensação de se sentir visitante na própria casa, no próprio corpo, de não reconhecer mais as próprias escolhas. Você, aí do outro lado, se interroga sobre isso também?

Não sei se é o sentimento coletivo de uma geração perdida, mas a mim parece que o excesso de informação, ou talvez de opção, ou mesmo a pressão de ser alguém depressa, acabou por gerar uma produção em massa de pessoas cuja personalidade acaba cedendo espaço aos itens de série mais valorizados pelo mercado. Se você não é tão belo, tão esperto, tão engraçado, se você não tem algum talento capaz de te destacar de alguma forma, talvez não tenha lugar pra você nesse mundo.

Em busca de um tal talento e das promessas que ele carrega envolto em si, cedemos. Destacamos as nossas vontades, confissões e fidelidade, colocamos no descarte mais próximo e viramos a página para escrever o que parece mais atraente, prazeroso de se ver e ouvir, menos conflituoso e mais lucrativo aos olhos de quem nos observa.

Na prática isso implica, inevitavelmente, em abrir mão de si. Não nego que até certo ponto a própria vida em sociedade exija mudanças práticas de personalidade e posturas em cadeia. Por outro lado, não parece leal, tampouco racional, que a vida inteira se resuma a tornar o olhar dos outros sobre nós mais aprazível.

Agora que vocês foram devidamente introduzidos ao assunto, sentamos em roda e inicio a confissão: aos vinte e um, demonstro uma profunda inaptidão de reagir às inseguranças com que me defrontei e me fizeram perceber o quanto, nessa onda de ceder aqui e ali, deixei pra lá o que era importante. Ainda guardo penduradas as mesmas saias plissadas que me fazem sentir princesa, mesmo que não as leve mais pra passear porque "não condizem com a minha idade"; ainda guardo rascunhos de textos nunca publicados, ainda há fagulhas ardendo o desejo de ser mais fiel à mim.

Nesse misto de destempero e reviravoltas, tento enxergar com clareza uma solução capaz de me reconciliar com quem acredito ser. Por ora, visão turva.

A única conclusão que cheguei até agora - palmas, inclusive, pois uma libriana chegou a uma conclusão sobre alguma coisa - foi a de que vinha me restringindo a uma certa linguagem de vida um tanto quanto afastada do trivial, levando tudo muito a sério e ao pé da letra, perdendo saúde por quase nada e reclamando do excesso de conservantes nas embalagens de água de coco já no café da manhã.

Mudanças não se operam da noite para o dia, claro, caso contrário as listas de ano novo seriam líderes absolutas em eficácia, mas quero propor aqui, a mim e a quem mais se interesse, um exercício diário menos comprometido com tanta formalidade. Afinal, as conversas triviais, desinteressadas, as trocas amigáveis, os conselhos de estranhos, os detalhes do dia a dia, tudo faz parte de uma válvula de escape indispensável para a largura do sorriso. E que eu só pretendo maximizar.

Mais de um ano depois de um hiato não anunciado no blog e em dívida comigo mesma, volto pra cá deixando o chinelo na porta e com vontade de devolver ao meu cantinho a cara de lar: lugar que a gente cuida, faz moradia aquece o coração.

Não sei por quanto tempo, nem de que jeito, mas é caminhando que a gente descobre, então vem comigo que a gente chega lá. Mais cedo ou mais tarde, mas chega.

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