Prove que você não é um robô

by - outubro 21, 2015

Dia desses, circulando pela internet, dei de cara com uma caixa de autenticação me intimando a digitar os números escritos numa imagem. No alto da caixa, a seguinte mensagem: prove que você não é um robô. 3598271. Digitei. Apertei enter. A autenticação passou. Que os fogos iluminem os céus, não sou um robô.

Meu palpite não é certo, mas arrisco dizer que a vida em muito se robotizou. O bom dia robótico de todos os dias, as intermináveis filas de carros que perseguem o mesmo destino inerte de um trabalho tantas vezes infeliz, o amor indébito que repousa sobre a repetição concreta ao invés da poesia contínua, construída verso a verso.

A vida robotizou a ponto de nos retirar a permissão para enxergar além. A vida real não tem filtros, molduras, nuances de cor e efeito, revelação instantânea e redução de imperfeições. Quem somos nós, afinal, quando não somos mais nada? Quando estamos longe da vida que aparentamos ter? Quem somos nós quando o outro não está olhando? Será que agradecemos ao garçom ou ao cobrador do ônibus? Será que pedimos desculpas por tropeçar no sapato de alguém? Quem somos nós quando o felizes para sempre de 90 minutos chega ao fim e as cortinas se abrem? Quem somos nós quando não sabemos quem somos?

Os robôs certamente gostariam de se juntar a nós. Gostariam de um nascer do sol genuíno todos os dias, da visão em milhões de cores que nos permite olhar o outro, muitas vezes sem enxergar a fundo, é verdade, mas ainda assim olhar, apreciar. Os robôs certamente gostariam de achar bobas as propagandas de margarina ou ironizar os árbitros de futebol. Os robôs certamente gostariam de ouvir o vento soprar calmaria nos ouvidos ainda adormecidos pela fadiga dos discursos dos semideuses. Os robôs, creio eu, gostariam de sentir o sangue correndo pelas veias, sangue que corre, assim como o tempo, para algum lugar onde se perdem aos poucos, sem que percebamos.

Todo dia, no meio da selva de pedra que se tornou este mundo, precisamos provar que não somos robôs. Seja através de uma sequência numérica, seja exibindo o abate de um coração que não teve aço em sua composição, seja admitindo que a gasolina está no fim, repousando num abraço manso que não tá dá certeza da vida, mas pelo menos não te tira aquela pouca que você ainda tem. Todos os dias, é preciso vociferar com ímpeto: hão de me retirar tudo, menos a (c)alma.




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2 comentários

  1. "Quem somos nós quando não sabemos quem somos?", obrigado por me deixar pensando nisso.

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  2. Até hoje não descobri a resposta. Volta pra me contar quando souber!

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Não vá embora ainda. Divida algo comigo. E obrigada por chegar até aqui! :)