Aterrizar

by - abril 15, 2016

Para ouvir ao som de: Ney Matogrosso - Poema

Eu sou uma pessoa que gosta de planejar, que gosta de imaginar situações caricatas, quase que arrancadas de filmes, e colocá-las como uma luva na minha vida. Sempre abracei o rótulo de quem vive demais no futuro com muito conforto, quase que desejando ser sempre assim. Fantasiar sempre foi meu carro chefe pra fugir da realidade tantas vezes agridoce.

Só que as vezes a vida gosta de dar um soco no nosso estômago, só pra ver se o reboliço mantém tudo no lugar. Por aqui, a vida tem mostrado como é fácil se perder de si, em qualquer esquina, em qualquer pensamento. De repente, a gente se questiona tudo o que já fez e viveu, ressaltando sempre as impropriedades de cada fase. Questiona as próprias escolhas, das mais lúcidas às mais vacilantes - estas, em especial, já conviviam com a dúvida antes mesmo de concebidas. Questiona o ritmo da própria respiração e que dores ela aponta, que significado ela tem, com ou sem alguém. Questiona os desejos, questiona pura e simplesmente se poderia ser mais feliz se tivesse escolhido outra casa, outra vida, outros hábitos, outra história, outro ritmo. Questiona o que pode fazer pra ser melhor.

Não é que questionar seja negativo, muito pelo contrário. É que nos acostumamos a viver de forma cômoda, automática, sem fazer maiores perguntas sobre o que quer que seja. Observamos calmamente a felicidade se esvair entre as frestas dos dedos, tão mansa, tão ali na nossa mão. Questionar é, então, a chance de descobrir que algo muito bom está na nossa mão ou que algo muito bom já caiu dela (ou, para os mais otimistas, que ela está vazia porque algo bem melhor está por vir).

No entanto, a visão permanece, na maioria esmagadora das vezes, turva o bastante para dificultar qualquer compreensão clara. Nessas horas o ser humano se apega a duas hastes de refúgio: o passado ou o futuro.

O passado gera angústia porque não pode voltar e consigo resgatar o que de bom se viveu. Por outro lado, caso resgatado, traria consigo também o que de não tão bom se viveu, o que nem sempre gera saldo positivo. O futuro, a seu passo, serve a uma ansiedade generalizada, que desconhece limites e que nos torna reféns eternos de algo que não se pode controlar. A inquietação não prescreve.

Eu sei que pode até parecer pretensão, ou um pouco de sabedoria barata de esquina, mas gosto sempre de me apoiar no que dizem os avós, os cartazes de poste de luz, os manuais de autoajuda, os bêbados da madrugada ou aquele amigo oráculo: o que é pra ser tem muita força, e é, independentemente de quando.

Se o passado é imutável e o futuro imprevisível, ao menos o presente embrulha num pacote bonito a esperança de poder ter uma vida diferente todos os dias, de fazer as escolhas certas, de entender que as entrelinhas do comodismo só serão mais interessantes que o resto da trama se a gente permitir.

Se todo mundo precisa de um guia, que o seu seja o nome numa lista de aprovados, o som do pulsar de um coração enquanto teu ouvido descansa manso no peito de alguém, o que te motiva a acordar todos os dias ou que te transporta, num momento de distração, pra algum lugar distante.

Mochila nas costas, a única certeza é a de que estamos só começando.

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