PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

by - abril 20, 2017

Falo "oxe" e sua variação "oxoxoxoxe", como uma boa baiana de berço. Acredito em astrologia, sinastria e tarô. Não acendo incenso, mas acendo velas - sou fiel devota de Santo Expedito, do tipo que anda com a imagem dele na carteira. Só uso chaveiros significativos (chaves costumam guardar os lugares para onde sempre podemos voltar, acho incrível o valor simbólico). Detesto a espuma do suco de abacaxi e adoro beber água gelada em copo de alumínio. Pratico mindfulness, meditação, leio sobre budismo, minimalismo, terapias holísticas em geral, mas troco tudo isso por uma tarde com os amigos (não há remédio melhor). Tive catapora aos 21 anos. Já quebrei um dedo brincando de guerra de almofada com meu irmão. Comprei um caderno dos Beatles pra usar na faculdade e tive pena de usar até praticamente acabar o curso. Guardo todas as cartelas de adesivo que colecionava na quinta série. Acredito em almas gêmeas, em destino, que as pessoas se encontram na hora certa e que se algo está escrito para ser, vai ser. Nunca passei dos 46kg (e ainda tentando). Já toquei piano e gostaria de voltar. Sou péssima em todos os esportes possíveis, exceto xadrez (nesse sou apenas ruim). Gosto de números pares. Passei parte da adolescência assistindo novela de época enquanto tomava sopa e fazia tricô, uma típica alma senil. Sonho marcar o mapa mundi com alfinetes coloridos dos lugares que visitei. Quero casar de véu, grinalda e buquê, com música de entrada já escolhida desde os 15. A propósito, acredito em casamento. Também acredito que comer manga depois das 17h faz mal. Pode fazer o calor que for, só durmo de edredom. Quando era pequena, minha mãe colocava capim santo dentro do travesseiro pra me fazer dormir melhor. Se alguém não é capaz de estar com você na doença, não é o suficiente. Sou tão desastrada que já cortei a córnea com a etiqueta de uma roupa. Sempre me imagino como algum personagem dos seriados que assisto.

Esse apanhado de informações sobre mim é parte de um processo exaustivo de aprender a valorizar a primeira pessoa do singular, um ser constantemente negligenciado pela minha insegurança. 

Sempre tive uma tendência autossabotadora de prestigiar em excesso os feitos alheios e depreciar os meus e acabei passando a vida me ressentindo da minha absoluta incapacidade de ser autoindulgente quando estão em jogo as minhas conquistas. Estou tentando me perdoar, compreender o valor que a gente esquece na estante empoeirada enquanto se atenta para o brilho de outras estrelas.

Estou aqui. Desconheço o caminho a percorrer, a direção a seguir, o destino no fim da trilha, mas de uma coisa sei: meus pés me trouxeram até aqui. Rachados, cansados, feridos, que seja. É com eles que eu vou. Eu. Primeira pessoa do singular.




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