by - abril 22, 2017

Minha avó veio passar o feriado na cidade. Não tive, infelizmente, a chance de crescer debaixo da asa da vó, não tive - senão por oração - o manto de proteção que só elas oferecem aos netos.

Me lembro de um conjunto de panelinhas de alumínio que ela me deu quando eu ainda pequena o suficiente para ser considerada fofa por andar só de calcinha - daquele tipo bunda rica - pela rua. Foi certamente um dos melhores presentes que ganhei na vida.

Ela pouco podia me oferecer, mas sempre que a visitava havia um saquinho pequenino reservado com moedinhas "para comprar doce", acompanhado de um "me desculpe por não poder te dar mais nada, minha filha". Me dava tanto, a vó, e nem sabia.

Nessa última visita, me lembrou de um episódio da minha infância que até hoje gera risadas na família inteira. O colchão velho posicionado sobre a cama deixava transparecer um pouco da espuma amarela de que era fabricado. Eu, então, com uma perspicácia totalmente inconsciente, gritei: "mamãe, o colchão da vovó é feito de bucha, ela lava os pratos com o colchão!".

Também me deu conselhos. Não tenha pressa para casar. Peça a Deus que um dia te presenteie com um filho. Ouça música caipira."Você precisa comer mais, minha filha". Ore muito, seja firme na misericórdia divina. Nunca levante a mão para uma criança. Aprenda a tocar um instrumento. "Já comeu?". Faça o bem. Seja grata. Não se acostume com as coisas fora do lugar. Não pode ser preguiçosa.

Minha avó não conheceu a escola, não se alfabetizou, não teve acesso a qualquer tecnologia e me contou toda tristonha que não entendia por qual motivo iam desligar o sinal da televisão na cidade dela. "Como vou fazer para ver a missa?", repetia.

Fiz uma chamada de vídeo pelo Whatsapp com minha mãe e mostrei pra ela, que me respondeu curiosa: "quando esse vídeo foi gravado?". Não sabia que dava pra ver alguém em tempo real pelo celular.

Entre tantas outras mil coisas, a inocência e pureza dela me assustam. Coisa difícil de se ver hoje. Assim como a sabedoria de certas palavras, que parecem realmente pronunciadas pela voz de um anjo.

Mais uma vez, pediu desculpas por não poder me dar mais nada.

Sem saber, me deu tudo que eu precisava.

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