CENTELHA

by - julho 09, 2017

Aos 14, enquanto planejava meu baile de debutante - coisa fora de moda pra mim já naquela época, mas ainda muito prestigiada pelos meus pais -, decidi, sem vacilar, que a música da valsa seria Lanterna dos Afogados, dos Paralamas do Sucesso.

No dia, os astros conspiraram para que tudo desse errado e o responsável pelo som fez tocar uma música qualquer, com um fundo clássico bem piegas, daquelas que já se escutou pelo menos umas quinhentas vezes nas festinhas de debutantes. E olhe que eu adoro música clássica. Mas isso não vem ao caso, voltemos à história da música.

Ninguém entendeu a minha escolha. Eu podia ouvir as pessoas se perguntando como uma mocinha se apresentava à sociedade com uma música daquelas. Não fazia sentido pra ninguém, só pra mim - ou talvez nem pra mim, afinal, aos quase quinze anos a gente não sabe lá muito bem o que está fazendo.

O que sei é que pra mim, libriana de carteirinha, incapaz de decidir sobre qualquer coisa com firmeza, era um bom indicativo estar certa desde o início sobre a música da valsa.

Lanterna dos afogados, até onde sei, se baseia nas mulheres dos pescadores, que aguardavam no meio da noite os maridos retornarem da pescaria enquanto seguravam lanternas para orientá-los na volta para casa. É, basicamente, um hino sobre encontrar o caminho de volta pra casa e ter alguém te esperando chegar.

Querendo ou não, conscientemente ou não, minha adolescência inteira se baseou nisso: encontrar o caminho e esperar que algo/alguém estivesse esperando. Muitos anos se passaram desde então. Já encontrei e perdi o caminho uma centena de vezes, a ponto de não saber determinar se já estive ou não no rumo certo alguma vez. Quanto à espera, já não sei determinar o que eu gostaria de ter me esperando. As vezes o amor é um lar, um lugar pra voltar, uma cama quentinha ou uma xícara personalíssima: só você usa.

As vezes lar é uma pessoa, que, assim como as esposas dos pescadores, te esperam voltar. O caminho, tal como o retorno da pescaria, é escuro, precário de sinalizações, paralisante, cheio de expectativas. Mas, ao final, tudo se encaixa quando a luz centelha no horizonte, indicando a proximidade de casa. Ao final, a claridade anuncia: tudo continua lá.

Ao que parece, a vida leva e traz muita coisa. Pessoas, lugares, objetos. Sonhos, sentimentos, esperanças. Nada fica no mesmo lugar. Algumas coisas não retornam nunca. Outras te fazem acreditar o tempo inteiro ter vivido verdadeiramente na lanterna dos afogados: encontrando o caminho de volta graças à luz que alguém emitiu pra você. 

De que vale a vida se a gente não for a centelha de alguém?

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1 comentários

Não vá embora sem deixar sua marca no meu universo.