Na parede
de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do
aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os
carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe
gente que brinca. (Eduardo Galeano)
Sempre diziam que aquela era a melhor fase da vida, que era
dela que iríamos lembrar pra sempre. Sempre diziam pra guardarmos os amigos,
porque seria muito difícil fazer novos dali para frente. Sempre nos diziam para
guardar o que quer que restasse daquele tempo, como um tesouro interior. Mas a gente era tão jovem que, nossa, parecia
que nunca ia acabar. A gente era ingênuo porque acreditava que tudo seria para
sempre. A urgência, o imediatismo e a sede eram tão grandes, mas tão grandes,
que quase nos engasgavam cada vez que abríamos a boca para gritar ao mundo o
quanto nossa vida era grande.
Hoje, o ontem é um porta-retrato empoeirado. É uma lembrança
mal resolvida, de um tempo vivido pela metade. Ah, se a gente soubesse como
seria o hoje. Ah, a gente teria quebrado mais a cara, só pra poder viver com
orgulho de exibir as rachaduras. Mas não, a gente deixou pra se quebrar de vez bem
depois. E aí o impacto foi grande, a gente não suportou. O impacto da vida
mostrando a sua força e nos fazendo perceber que o conto de fadas nunca
existiu, nos fazendo hesitar dia após dia, recuando nosso passo, tolhendo
nossos arbítrios, exibindo intempéries e cóleras ao seu bel-prazer contra o nosso olhar inocente.
Há meia década atrás me olhava no espelho e o brilho do
aparelho dentário irradiava luz mais do que qualquer outra coisa. Calçava meu all
star preto sob cuja sola havia o nome “Andy”, em alusão ao filme Toy story (uma
tentativa inocente de me vincular a alguém, como se sempre houvesse para onde
voltar ou a quem pertencer), era magérrima (mais do que nunca) e me sentia extremamente confortável com isso, além de me sentir
extremamente confortável sendo careta, escutando músicas alternativas,
estudando acima da média, usando meus casacos coloridos e elásticos para cabelo
um tanto quanto infantis. Não vou dizer que era uma imagem
linda, até porque se você imaginar esses detalhes como um conjunto ele obviamente
não parecerá muito harmônico, mas vejam só: era eu.
De lá pra cá, a vida rezou sua cartilha para mim e para tantos
outros amigos, nos fazendo mais do mesmo, um encaixe adequado para a idade e
para o novo papel que desempenhamos: adultos (ainda que não sejamos em verdade,
é assim que somos tratados). Abandonamos os aparelhos para exibir no lugar
sorrisos amarelados, o all star foi substituído, não há mais dizeres sob as
solas de nenhum calçado e também já não pertencemos a nenhum lugar a não ser à
própria vida e seu navegar impreciso. Os corpos hoje nos fazem reféns, vítimas
de uma fábrica que direciona a imagem adequada e nega os biotipos individuais.
Não se pode exibir seus gostos com orgulho, porque sempre haverá alguém pra te
dizer que está errado: “gostar de comédias românticas é intolerável na sua
idade”, “franjinha não dá credibilidade”, “quem continua se vestindo como fazia
aos 15 anos não pode reclamar de ser tratado como se de fato tivesse” e a lista
de predicados proibidos para adultos é ainda maior e mais alarmante.
Dizem que isso é crescer: abandonar as velhas roupas,
posturas, refinar o gosto por cinema (de drama já basta a vida real, não
acham?), música (jazz em tempo integral se quiser ter chances de ser alguém
nessa vida), culinária (isso inclui comer mais salada, vejam só). Todos nos tornamos missionários da mesma filosofia incompreensível e vendida em larga escala: crescer é ser aquele moço sério atrás do balcão, é dar bom dia com a cabeça e não ser gentil porque o mundo é uma salva e você precisa conquistar seu espaço a qualquer custo.
A sobriedade (uma mera tentativa de disfarçar o excesso de competitividade até pra comprar o pão francês mais quentinho) permeia todos os lugares e não é mais possível
rolar de rir, ter medos bobos ou pantufas coloridas. Não é mais permitido ver
filmes de sessão da tarde porque há um imperativo categórico: tudo precisa
causar reflexão, tudo precisa exibir nervos existenciais, tudo precisa ser
tenso e desconcertante, sério demais.
Nessa mania de procurar explicação pra tudo e no meio dessa
selva de pedra e do céu cinza que se exibe acima das nossas cabeças, não dá pra
concluir outra coisa que não esta: crescer e evoluir são coisas bem diferentes. Ainda aguardo os sinais da evolução, porque de crescer já
estou cheia.
Nossa. AMEI o texto! Rapaz, concordo em muita coisa com vc! E me sinto bem limitada todas as vezes que tenho que comprar uma roupa para o trabalho. Eu, que sempre fui tão brincalhona, tendo que usar aquelas roupas sérias de escritório... me senti bem cinza :/
ResponderExcluirhhahahahaha continuarei lendo seu bloog! *_* vc escreve mt beem ahahhaha *_*
Beijokas, Lêka.
Adorei seu texto. Acho que ele reflete um pouco da contradição entre aquilo em que nos tornamos contra aquilo que nos tornaram, e como lidamos com isso.
ResponderExcluirFico muito feliz quando percebo, em meio a este mundo regrado, aquelas pessoas que ainda cantam, aquelas pessoas que ainda brincam
Pra mim, a frase do Galeano é o melhor resumo, meninas. Que bom que ainda há quem escolha as cores em vez do cinza. Obrigada pela visita e perdão pela resposta absolutamente tardia.
ResponderExcluirPra mim, a frase do Galeano é o melhor resumo, meninas. Que bom que ainda há quem escolha as cores em vez do cinza. Obrigada pela visita e perdão pela resposta absolutamente tardia.
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