sábado, 28 de março de 2026

Toda noite batem à minha porta.

Não vejo o quê, não vejo quem.

Só a sombra no vidro fosco

me observa também.


As luzes estão apagadas,

mas o fogo ainda arde 

e algo diante de mim

queima enquanto me invade.


Tento fugir,

mas não há caminho

que não leve de volta

à mesma porta.


Nada ouço além da batida.

Nenhuma lucidez me alcança.

Exausta, adormeço.

Em paz, me levanto.


Como se o vento nunca

tivesse chorado à minha janela,

como se a noite guardasse,

num baú fechado,

os segredos que só ela sabe.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Deus

Nós não tínhamos intimidade alguma. Sempre te enxerguei como aquele colega de escola que estuda em outra turma, que a gente não conhece bem, não entende o que todo mundo vê nele, nunca sentou pra conversar junto e nem sabe explicar a razão pela qual se fala tanto dele.

Minha mãe sempre me dizia para acreditar que você queria o melhor para mim e semanalmente sentávamos à mesa para ler sobre você, celebrá-lo e dar as mãos, com os olhos fechados, repetindo versos que remetiam a tudo que você ensinava.

Mas eu não me sentia próxima.

Eu não falava de você, não te entendia, não podia nem afirmar que você existia. Foi assim durante muito, muito tempo. 

Até que, como uma chave virando dentro da ignição, eu fui tocada. O motor ligou. Houve combustão. Algo adormecido em mim começou a acordar.

Foram muitas noites sozinha, no escuro, de joelhos. Não havia ninguém a quem eu pudesse recorrer. 

O último para quem eu ligaria se tornou o primeiro.

A cabeceira da minha cama estava repleta de ti. Aquele livro empoeirado na minha mesinha começou a ser aberto. E durante alguns minutos eu tinha paz absoluta. Por alguns minutos havia sentido em existir.

Ainda não sei falar com você direito. Começo sempre na minha cabeça. Conversamos ao longo do dia. Conversamos sempre que vejo uma ambulância. Conversamos sempre que vejo as viaturas passarem. Conversamos por horas e horas, toda semana, nas minhas idas e vindas. Conversamos sempre que me lembro do quanto já fui - e sou, e posso continuar sendo - ruim, egoísta, difícil, pecadora, reclamona, soberba, arrogante, ingrata. Conversamos sempre que uso a memória para me desculpar por todas as vezes em que toquei a vida do outro de mau jeito. Por todas as vezes em que amei errado, em que supus o que não devia, em que quis tomar partido e me intrometer naquilo que era a sua vontade. Conversamos sobre tudo, sobre todos, sobre coisas que só dei a você o poder de conhecer. Conversamos aos prantos, aos risos, no silêncio, no escuro, quando nasce o sol no horizonte. Conversamos sempre que canto sobre você. 

Você é calado, é certo.

Há poucos minutos conversávamos e eu lembrava de todas as pessoas e situações que já tentaram me apresentar a você antes. Debaixo das árvores, sentada em calçadas e ruas, em caminhadas, numa xícara de chá quentinho depois de muito choro, no escuro de um carro, no sinal da cruz ao passar pela igreja, na corrente que abraça meu pescoço, no altar que guarnece o quarto, nos animais que se aproximam sorrindo, na bênção ao chegar e sair, no que a ciência não explica.

Todos sabiam de algo que eu não sabia. Demorei para conhecer. Demorei para me deixar conhecer. Algo em mim não estava pronto. Algo em mim ainda se pergunta o que você continua fazendo aqui depois de conhecer tudo, revirar tudo, avaliar tudo.

Meu muro de tijolos erguido com tanto fervor ruiu em segundos.

No centro do meu coração há um prédio.

Naquela noite, ali se acendeu uma luz.

Que nunca mais apagou.

E desde então ela ilumina tudo.

E desde então você está em tudo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Rebobinar

Para ler ao som de: Je te laisserai des mots - Patrick Watson

Martha Medeiros disse uma vez que queria uma primeira vez outra vez e ter sensações inéditas até o último de seus dias.

Eu quero que algumas sensações familiares se repitam, Martha.

Quero olhar para alguém sabendo de cara que Deus colocou os mesmos ingredientes na alma. Sim, dá pra saber só de olhar. De algum jeito a gente sabe, sente.

Quero o perfume inconfundível que só tem quem a gente ama. O cheiro da pontinha do nariz encostada na bochecha, exalando notas que só existem no caminho para o pescoço daquela pessoa. O abraço terno, quente, almofadado, firme, preenchido da ilusão de pausar o movimento de rotação da Terra.

Quero voltar a pisar no chão de ardósia da infância, que era frio, me cabia inteirinha esparramada e parecia ter o tamanho do mundo inteiro. A base de uma batedeira antiga, que já não funcionava mais, servia como porta giratória do banco que as bonecas visitavam para sacar seus salários. Quero lembrar de gargalhar fogos de artifício.

Quero voltar a fazer a rubrica perfeita, coisa que só parece possível de acontecer uma vez na vida inteirinha. Quero reescrever dedicatórias, bilhetes, notas, agendas, cartas, ocorrências, relatórios, redações, cartazes.

Quero rebobinar a fita de volta ao dia em que recusei aquele convite. Em que devolvi a arma. Em que abaixei a guarda. Em que lancei aquela bola. Em que vesti-me de paetês para perder o brilho. Em que se tirava foto sem saber como ela ia ficar.

Quero de volta o frescor da tarde mansa passando sem compromisso, com a minha orelha grudada em um Siemens A50 azulzinho, conversando todas as abobrinhas possíveis com amigas de longa data que tinham o plano Oi 31 anos. Aquela meia colorida até o joelho, cadê a coragem que me faltou para usar?

Quero quebrar a tartalete inteirinha, tirando as cascas, para comer só o meio, o recheio, a parte que importa. Quero amarrar outra vez os coturnos, conferir a munição, rezar a Oração de São Jorge antes de amanhecer o dia e me lembrar tão cruamente a sensação de ser mortal.

Quero sentir a pontada na lombar após um dia inteirinho pintando as paredes do quarto e fazendo tudo ao meu redor ter a minha cara estranha, absorta, encantada demais com o mundo que estava construindo só para mim. É tão bom não precisar provar nada para ninguém, enfim.

Quero de volta a sensação de ouvir a persiana tilintar sempre que o ventilador no três rodava em direção a ela e se misturava ao ritmo da música dos anos sessenta que eu ouvia enquanto escrevia sob a luz baixa. Esse universo, se existisse em algum lugar factível, caberia inteirinho ali.  

Quero me pendurar de novo no guarda-corpo da ponte e ter, por um milésimo de segundo, a certeza de que, sim, o abismo olha mesmo de volta para você. Quero pintar as unhas de vermelho rebu e me lembrar de como costumava ser linda, ainda que não soubesse.

Quero voltar e lembrar que é preciso sair de cena antes que a partida perca o sentido. Detectar o momento exato. Como uma fagulha. Saber a hora de queimar e apagar. Emudecer. Deixar-me ir. Largar a pedra que fazia de mim Sísifo. Voltar a olhar para as conchas de um jeito curioso. Ter permissão para recomeçar.

Sabe, Martha, eu quero reviver o abraço que dei na minha mãe no dia em que fui embora de casa. Aquele abraço de embargar a voz, a alma, o corpo inteiro, me disse que eu caberia ali pra sempre, mesmo que o mundo não me coubesse. Foi a primeira vez que acreditei no pra sempre depois de grande.

Ela me deu a bênção para viver todas as coisas novas, Martha.

E eu só quis reviver as antigas.