sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Alise

Elisa nasceu na primavera, época em que os ipês estão floridos por toda a parte. Não à toa, como as flores, ela desabrochou lentamente. Elisa foi uma criança curiosa, esperta, de olhos atentos para todos os cantos, como quem parecia não querer perder nada. Começou a falar cedo, mas era mais observadora que falante. Parecia usar a visão para catalogar tudo quanto pudesse e construir uma espécie de miscelânea interior, um acervo próprio ao qual, ao longo da vida, pouca gente teve acesso de verdade.

Introspectiva e de poucos amigos, Elisa fazia questão de não ser notada. Não era tímida, exatamente. Se virava muito bem em todos os círculos, sabia conversar sobre tudo, mas vivia com a sensação de não pertencer a lugar algum. Seu verdadeiro refúgio era o Lago das Graças, especificamente uma de suas bordas, a mais remota e difícil de acessar e, consequentemente, a menos frequentada - exatamente o motivo pelo qual era seu lugar favorito no mundo.

O Lago das Graças tinha esse nome porque, muito antes de se incorporar ao parque, o local era frequentado por mulheres lavadeiras que cantavam enquanto batiam as roupas contra as pedras e enchiam baldes para levar água para casa. Conta a história que uma dessas mulheres, com seus quarenta e poucos anos, mediana em tudo o que se pode ser mediano, conversava com o lago. Em uma dessas conversas, a mulher teria ouvido que ele poderia realizar o mais profundo desejo de sua alma. A mulher, no entanto, esperava há tanto tempo pelo que queria que já não sabia mais se, com sua idade e saúde, seria possível obtê-lo e nem mesmo se arriscava a confessar para mais ninguém, além de si mesma, o que pedia seu coração.

Um dia, após conversar com o lago e obter a promessa de que ele realizaria esse desejo, a mulher se descobriu grávida. Ela geraria o primeiro e único filho, de forma natural, após ser diagnosticada como infértil há quinze anos. A criança, meses depois, foi batizada à beira do lago e considerada um milagre pela. Desde então, outras histórias começaram a surgir, todas envolvendo o lago que escuta seu grande desejo e o realiza. Com o tempo, as graças ficaram famosas na região, dando ao lago o nome que carrega hoje.

Em anos frequentando o lugar, Elisa havia visto pouquíssimas vezes pessoas na borda Leste, geralmente pesquisadores colhendo amostras de água ou fotografando animais. Era ali, no meio do “nada”, que ela estendia sua manta, deitava de barriga para cima e lia seus livros por horas a fio. Não entendia nada de constelações, mas acreditava que as estrelas eram capazes de ouvi-la. Acreditava que o lago, como na história que deu origem a seu nome, também falaria com ela um dia. Bastava que descobrisse qual era o grande desejo de sua alma, aquele que a faria desejar tão fortemente a realização a ponto de o lago ouvir seu clamor.

Parecia um lugar mágico, mesmo para quem não acreditava em lagos falantes. As árvores eram frondosas, altas, entrelaçavam-se em suas copas e formavam o clima perfeito para um dia ao ar livre. O vento era sereno, sussurrava, e a umidade adentrava cada fio de cabelo de Elisa sempre que ela perdia a noção da hora, coisa que era comum. A proximidade de casa e a atmosfera remota tornavam a combinação perfeita para fugas constantes até o lago.

Embora tenha se habituado a crescer sozinha, a observar a vida e o universo como quem analisa uma obra de arte num museu (perto o bastante para admirar, longe o suficiente para não tocar), Elisa sabia que faltava alguma coisa nela ou, talvez, no mundo como ela o conhecia. Embora não soubesse precisar o que era, sabia que tinha a ver com algo que não encontraria sozinha.

Na última semana, ela visitou o lago todos os dias, atirou pedrinhas nele, conversou com os pássaros e leu dois livros inteiros. As férias estavam acabando, e logo mais ela começaria em uma escola nova. Elisa gostava de algum grau de previsibilidade e não sabia bem o que esperar do lugar novo, embora não pudesse fazer nada a respeito disso naquele momento. Eu sei o que você está pensando e, sim, é o que parece: coisa de alguém cronicamente ansioso. Elisa gostava de antecipar cenários, criar roteiros alternativos e brincar de viver no mundo da lua. Era completamente desinteressada pela vida alheia, exceto pelas cenas do cotidiano, as quais gostava de observar. Era imaginativa ao extremo, vivendo para reconstruir o final dos livros que lia e não aprovava o desfecho, catalogar pensamentos e construir seu “caderno do repertório”, apelido carinhoso de um caderninho surrado que carregava para todos os lugares.

Naquela segunda-feira, quando levantou cedo e se vestiu, Elisa não imaginava o que estaria por vir. Ninguém vê milagres no cotidiano tão bem quanto ela, e nem mesmo assim conseguiu percebeu o exato segundo em que o efeito borboleta começou.

Um corredor. Um par de olhos negros.

Aqui a verdadeira história começa.

(...)





Continua.

Ou não.

Para ouvir ao som de: Simple Twist Of Fate - Bob Dylan

Hoje resolvi tentar algo diferente.

Abri minha caixa de pandora e tentei me curar de cada mal que ela guardava.

Havia cartas, bilhetes, chaveiros, guerras frias, fotografias, dores imensas, guardanapos, tickets de cinema, listas, promessas, dedicatórias, tropeços. Um compilado do que já se quis que desse certo.

Revisitei cantos da memória. Abri um portal que me transportou direto para uma sala branca, vazia. À minha frente só um retrovisor. A mim cabia apenas assistir cada lance do passado que ia sendo exibido, mas sem modificar, agarrar, retornar. Sem qualquer controle.

Uma parte de mim se sentiu afugentada; outra, dolorida. Uma outra se viu apegada a cada caquinho; outra, parecia reconhecer aquela história como a de algum personagem de novela. Não parecia ser a minha história.

Comecei a me perguntar em que momento algumas coisas pararam de funcionar e eu desisti de consertar. Em que momento promessas escritas com punho firme se dissiparam até que só restassem partículas invisíveis.

Você acorda um dia e mais de dez anos se passaram, as letras de uma banda de rock qualquer começaram a fazer sentido, você tenta se lembrar de quem foi, mas está entorpecido em memórias do que parecia ser. Apenas aqueles registros te lembram de quem você foi.

Fragmentos de pensamentos que não se encaixam.

Resolvi encarar o papel em branco, aqui, exatamente aqui, onde sempre confrontei meus fantasmas. Aqui onde sempre fiz questão de insistir em querer acreditar em coisas que talvez já não existissem.

E ainda não encontrei sentido.

Em algum momento de algum dia já tive certeza de que sempre existiria uma ponte para o passado. Achava que poderia atravessá-la e voltar ao exato segundo em que tudo era possível. 

Vivi a olhar para esta ponte. Sabia o que havia do outro lado. Um rio imenso e caudaloso separava os dois lados, mas vez ou outra o que os aproximava parecia tão maior.

As águas de hoje não são mais as mesmas e é verdade que a ponte parece ter ruído.

Nem tudo resiste à ação do tempo, enfim. Nem pontes nem águas. De volta às margens do rio não cabe lamento. O único caminho é aprender a nadar. Não necessariamente para chegar ao outro lado da margem. Mas para curar. Para ser, eu mesma, a ponte que já não existe. Para que eu saiba me levar aos lugares que preciso ou quero ir. Para que eu saiba me perdoar por tudo que não sabia na época certa. 

Há muita coisa que hoje sei e que poderia ter mudado o rumo da história. Teria mudado o rumo da história? Fiz um passeio em silêncio por ela. Há alguém lá. Mas não sei se sou eu. Eu gostaria que as peças tivessem sido movidas na direção e hora certas. Dizem que o meio do cubo mágico nunca muda. Aceito a sina. Tudo florescerá ao redor daquilo que não posso mudar. 

Há um espaço vazio na sala branca com retrovisor. A fronteira entre o que inevitavelmente nos confronta com versões menos lapidadas de nós e o que nos conforta por que existiu. Ainda que a realidade me desminta, enxergo a semente. O relógio não me espera e eu vou.

Com os olhos à frente, mas carregada de tudo que já vi.

domingo, 19 de julho de 2026

Despeço-me da pessoa que me tornei aqui. Das ruas que me conhecem há décadas. Dos becos que explorei, ora perdida, ora buscando algo que nem sei se encontrei. Despeço-me do desfiladeiro de ipês, das ruas estreitas e do ar seco entrando pelas narinas. Das casinhas com gente sentada na porta no final da tarde. Despeço-me do lugar que chamei de casa e para onde voltei incansáveis vezes por crer que de fato era. Despeço-me da pessoa que imaginaria ser se continuasse aqui. Despeço-me também do que não pude ser. Despeço-me do mergulho no rio que não dei e das águas que já não são mais as mesmas de quando cheguei. Despeço-me dos rostos familiares com os quais cruzava na rua. Despeço-me dos bairros, das praças, da lojinha de bugigangas. Despeço-me, enfim, dos lugares em que estudei, cresci, compartilhei amores, amigos, cafés, lágrimas e conquistas. Despeço-me dos desfiladeiros de onde quase pulei uma centena de vezes em imaginação e de todos os recomeços que o mesmo sol que me cegava me fazia crer possíveis. Conheço de cor e salteado a entrada e saída deste lugar. Sei como chegar, como sair e apenas pelo ar consigo dizer se estou perto. Ainda que me sequestrassem a visão eu saberia voltar pelo rastro do olfato. Esta cidade me talhou, me poliu, me assistiu em fases que, se não houvesse testemunha, eu arriscaria dizer que nem sequer existiram. Despeço-me da árvore que te dá o nome sabendo que marquei o meu nome no teu caule. Despeço-me como quem não sabe dizer adeus. Por isso, até logo.