Despeço-me da pessoa que me tornei aqui. Das ruas que me conhecem há décadas. Dos becos que explorei, ora perdida, ora buscando algo que nem sei se encontrei. Despeço-me do desfiladeiro de ipês, das ruas estreitas e do ar seco entrando pelas narinas. Das casinhas com gente sentada na porta no final da tarde. Despeço-me do lugar que chamei de casa e para onde voltei incansáveis vezes por crer que de fato era. Despeço-me da pessoa que imaginaria ser se continuasse aqui. Despeço-me também do que não pude ser. Despeço-me do mergulho no rio que não dei e das águas que já não são mais as mesmas de quando cheguei. Despeço-me dos rostos familiares com os quais cruzava na rua. Despeço-me dos bairros, das praças, da lojinha de bugigangas. Despeço-me, enfim, dos lugares em que estudei, cresci, compartilhei amores, amigos, cafés, lágrimas e conquistas. Despeço-me dos desfiladeiros de onde quase pulei uma centena de vezes em imaginação e de todos os recomeços que o mesmo sol que me cegava me fazia crer possíveis. Conheço de cor e salteado a entrada e saída deste lugar. Sei como chegar, como sair e apenas pelo ar consigo dizer se estou perto. Ainda que me sequestrassem a visão eu saberia voltar pelo rastro do olfato. Esta cidade me talhou, me poliu, me assistiu em fases que, se não houvesse testemunha, eu arriscaria dizer que nem sequer existiram. Despeço-me da árvore que te dá o nome sabendo que marquei o meu nome no teu caule. Despeço-me como quem não sabe dizer adeus. Por isso, até logo.
UNIVERSO PARALELO
domingo, 19 de julho de 2026
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Depois do mapa
Saia, vá às ruas. Vista sua melhor blusa de frio, peregrine por cada canto. Ouça a própria respiração se tornar uma chaminé de fumaça gelada. Veja o tempo afagar sua pele, queimar suavemente suas extremidades. O frio entorpece. Suba a serra. Contorne cada pedra. Chegue ao topo e observe.
Ele disse que você não conseguiria parar de procurá-lo. Silenciosamente, você fez as malas, dobrou as cobertas e, na calada da noite, ganhou o mundo. Agora é dia. Como plasma frio sob a ferida, sua circulação começou a ganhar fôlego novo. Não é verdade que o tempo cura tudo. Algumas coisas você precisará remediar sozinho, com seus cadernos, cálculos, pensamentos e variáveis. O caminho é nebuloso porque você tende a encontrá-lo na forma como percebe o mundo.
Não, não é o destino.
Aquela nuvem não se parece o caqueiro de cimento que ele quebrou no verão passado. Você só se tornou mais consciente da cor azul celeste porque é a cor favorita dele, não é que toda camisa, cartaz, placa, automóvel ou propaganda escolheu te dar um sinal de que deve explicar para ele o teu rumo. Outros muito mais vão te amar, menos barrocos na aparência e mais renascentistas na perfomance. Volte a cultivar o bonsai de jabuticabeira na janela, as próprias sobrancelhas e o interesse que tinha em expandir seu repertório a partir das próprias referências.
Pare de checar a caixa de e-mail, de spam, de mensagens, de correio. Abandone o mapa, a bússola, a leitura de mundo preexistente, as pegadas no chão. Não importa que o tempo esteja passando. Ele disse que você não conseguiria parar de procurá-lo.
Você vai encontrá-lo ao meio-dia de uma quinta-feira entrando no carro com uma mancha de calda de caramelo no peitoral direito da camisa, denunciando que acabara de sair da sorveteria preferida de vocês. Vai encontrá-lo ao terminar de ler Kafka à beira mar sem receber massagem nos pés ou uma piada sobre o calo do seu dedo mindinho. Nos dias especialmente frios, vai encontrá-lo na névoa que se forma e gruda no box durante o banho quente, agora sem desenhos ridiculamente imaginados para você adivinhar. Ainda no banheiro, o enxaguante bucal estará sempre cheio. Você vai encontrá-lo no canto esquerdo do sofá, naquela mancha que não sai por nada e que tem o exato formato do copo preferido dele. Na cozinha, ele está em toda receita de pudim que desandou. No ar, em tudo que cheira bem. Na estante, em toda história de cadência acelerada. Na cama, em toda insônia. No corpo, em cada centímetro tocado.
Fosse um corpo de delito, intermináveis seriam os vestígios. O dolo. Fosse um acidente, seria nuclear. Alta contaminação. Mas diria Marco Aurélio que nada se deve temer sobre a morte, senão chegar até ela sem nunca ter começado a viver.
Saia, vá às ruas. Antes, porém, atualize a folha de calendário que ainda pousa em Janeiro. Pare de saborear a acidose metabólica que herdou desde o dia em que ele disse que você não conseguiria parar de procurá-lo. Pense nele "like a complete unknown", até que o azul celeste volte a ser apenas uma das dez milhões de cores. Até que a calda de caramelo na camisa volte a ser apenas um inconveniente girando na máquina de lavar. Até que a jatucabeira frutifique. Até que, sem se dar conta, sem aviso prévio, numa quinta-feira ao meio-dia você vá comprar um novo caqueiro de cimento. Até que desprograme o olhar. Até que, sem notar, você volte a se tornar consciente do mundo ao seu redor sem um espelho da ausência dele.
Até que, qualquer dia, você redija seu próprio mapa.
sábado, 28 de março de 2026
Toda noite batem à minha porta.
Não vejo o quê, não vejo quem.
Só a sombra no vidro fosco
me observa também.
As luzes estão apagadas,
mas o fogo ainda arde
e algo diante de mim
queima enquanto me invade.
Tento fugir,
mas não há caminho
que não leve de volta
à mesma porta.
Nada ouço além da batida.
Nenhuma lucidez me alcança.
Exausta, adormeço.
Em paz, me levanto.
Como se o vento nunca
tivesse chorado à minha janela,
como se a noite guardasse,
num baú fechado,
os segredos que só ela sabe.