Quando pensamos em fome, talvez a primeira imagem que venha à cabeça seja a de algum país africano carente de políticas humanitárias, atenção social e estruturação política. Essa é a fome física, com a qual nos deparamos quase todos os dias nas chamadas dos telejornais ou na esquina de casa, nas mãos estendidas de quem pede ou na lágrima silenciosa de quem sente.
A fome, contudo, tem faces pouco exploradas. Sente fome quem aos poucos deixa de alimentar a própria vida. Quem se enquadra no clichê de não alimentar os sonhos ou os animais. Sente fome quem espera por uma tal hora certa pra ser feliz. Sente fome quem deixa de se nutrir pelas pequenas alegrias diárias. Sente fome quem não devora o outro, quem não permite descobrir o amor em outra pessoa. Sente fome quem não se abastece para os inevitáveis invernos pelos quais todo ser humano passa. Sente fome quem espera que as respostas venham na próxima pesquisa do Datafolha, do próximo pesquisador de Harvard ou de algum guru de autoajuda. Sente fome quem ignora o coração sentindo frio. Quem não tem pelo que sentir, pelo que lutar, pelo que chorar. Sente fome todos os dias quem permite que a alma emagreça para caber no manequim padrão. Sente fome quem esquece que saber o endereço não é garantia de que a carta vai chegar ao destinatário. Nem de que retornará.
Sente fome quem descobre, depois de ler um texto, que está faminto.
De viver.
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