sábado, 14 de outubro de 2017

LAMPEJO

Este conto de fadas não começou com o fatídico "era uma vez". Começou diferente, aos berreiros, numa sala de hospital, há mais de vinte primaveras. A história prosseguiu sem a credencial de princesa que perdeu o sapatinho de cristal, mas de consolo veio o all star na lama, o pé na jaca e a cabeça nas nuvens. Não tinha coroa, não tinha pedigree, a garota era um trote do destino.

A garota, esta que entrou no baile sem convite, era eu. Boba, porque estava muito melhor do lado de fora. É como crescer: a gente faz de tudo pra ser aquilo que chamam de gente grande, incluindo andar pela casa com os sapatos folgados da mãe, mas o máximo que a gente consegue mesmo é dor de cabeça e um punhado de contas pra pagar.

Descobri que a promessa de felicidade dos contos de fadas era propaganda enganosa de uma empresa estelionatária: a vida. A mesma que vende sonhos. A mesma que os despedaça. Uma placa luminosa atrativa e ao mesmo tempo repugnante.

Virando a página, um arroto de maturidade me picou, parecendo até castigo, trote do destino pra me fazer transpirar arrependimento. Quase pude ouvi-lo dizer: não era isso que você queria?

Não, destino, não era isso que eu queria. Eu não queria acordar com a alma abarrotada, com os sonhos remendados, com o café frio, com pressa ao caminhar, tampouco com estes pensamentos encardidos. Eu queria manter nos olhos o brilho de quem acredita no que é bom, no céu azul que se abre após a tempestade, na bondade do jovem que levanta para dar lugar ao senhor no transporte coletivo, na esperança que um comercial de margarina te dá de que a vida pode ser leve e despretensiosa.

De alguma forma, o castigo por querer crescer é, vejam só, crescer. Presente de grego. Armadilha de pirata. Pega essa orelha de burro e fica no canto da sala, garotinha inocente.

De repente, tudo virou motivo de olhar feio, de cara fechada, de muita reclamação. Até eu, criança tão alegre que fui, hoje me pego reclamando de quase tudo ao redor. Ah, se não fosse o trânsito, os impostos, o trabalho, a cobrança, o exercício, o colesterol, a lei, o governo, a taxa de download, a educação, o terrorismo, a violência, os agrotóxicos, os conservantes, a poluição, as buzinas, as vassouras que não varrem cantos, as quinas de móveis que machucam dedinhos, os casacos que não aquecem do frio, as folhas de papel que cortam o seu dedo. Ah, se não fosse tudo isso.

Se não estamos falando de contos de fadas, não dá pra esperar um final feliz, né? Nem fogos, muito menos vestido bordado, mas ainda dá pra sonhar com uma vida quietinha, onde tudo caminha no ritmo bom de quem tem a calma como guia, de quem tem café na mesa, saúde pra batalhar pelas coisas em que acredita e amor por todos os lados. Quem precisa, afinal, acreditar em contos de fadas?

Eu não.








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