quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

MIL É MAIS QUE OITENTA

Para ler ao som de: Brandi Carlile - Heart's Content


Um dos meus passatempos favoritos na hora de viajar é observar. Dia desses, numa viagem longa de volta pra casa, vim sentada numa poltrona ao lado da janela, do meu outro lado uma criança e nas duas poltronas seguintes, seu irmãozinho e a mãe.

Eram duas crianças quietas e comportadas, mas extremamente graciosas, do tipo que não se costuma encontrar em viagens longas de volta pra casa. Já pressenti de início a sorte. Pouco depois de partirmos, com seus cintos devidamente afivelados e perninhas esticadas, o irmão mais velho vira para o mais novo e tenta explicar o roteiro de viagem, futucando bem debaixo do tapete da memória os nomes das cidades pelas quais o ônibus passaria e furtando do irmão a lembrança de que pelo menos oito horas os separariam de casa.

De repente, depois de dadas as explicações e orientações de viagem – que incluíam um pedido encarecido para que o uso do banheiro só fosse feito com a permissão e acompanhamento da mamãe -, ele disse: Manoel, você sabia que mil é mais que oitenta?

O ônibus, devo advertir, era muito silencioso. Mal se ouvia o barulho do ar saindo pelas entradas acima de nossas cabeças. Mal se ouvia o atrito dos pneus na estrada. Mal se ouvia o pensamento de quem só ansiava chegar a seu destino. Porém, o rompante de doçura do irmão de Manoel dissipou o silêncio em risos fartos e genuínos. Apreciava-se ali a inocência do questionamento.

Acho graça de ver o quanto a noção de grandeza das crianças difere da nossa. Para nós, dizer que o número mil é maior que o número oitenta chega a ser ridículo de tão óbvio. Para elas, a curiosidade reside no detalhe que não teme ser óbvio, caricato ou evidente. A inocência não se importa com o revestimento que possam lhe dar, não se importa com o rótulo ou com o riso. Simplesmente paira, espalha seu gingado por entre os conceitos já formados de quem perdeu o dom de duvidar.

A curiosidade de Manoel foi instantânea. Respondeu de forma veemente: “Sério, Luiz?”. Sério, Manoel. Seríssimo. E esta, saiba de antemão, é apenas mais uma das coisas óbvias que você vai aprender na vida, mas que vai precisar ouvir repetidas vezes até talvez se convencer da seriedade. 

Mil é mais que oitenta. Amor é uma grandeza cuja medida o homem desconhece. O sol nasce e se põe todos os dias, mesmo que entre um fenômeno e outro a gente as vezes não compreenda os desígnios de Deus pro nosso caminho. Gentileza é um dos combustíveis mais poderosos de que dispõe o homem. Os impostos precisam ser pagos, inevitavelmente. Você vai se machucar, mais inevitavelmente do que pagar impostos. Mas nada será tão delicioso quanto chegar em casa e ter alguém te esperando. Foi assim que a minha viagem acabou. E é por isso que eu sempre corro atrás de começar uma. Porque nada se compara ao sentimento de retornar.

(Feliz de quem tem um lar. Que é pra onde nosso coração não se cansa de voltar...)

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