Um dos meus passatempos favoritos
na hora de viajar é observar. Dia desses, numa viagem longa de volta pra casa,
vim sentada numa poltrona ao lado da janela, do meu outro lado uma criança e nas duas
poltronas seguintes, seu irmãozinho e a mãe.
Eram duas crianças quietas e
comportadas, mas extremamente graciosas, do tipo que não se costuma encontrar em
viagens longas de volta pra casa. Já pressenti de início a sorte. Pouco depois
de partirmos, com seus cintos devidamente afivelados e perninhas esticadas, o
irmão mais velho vira para o mais novo e tenta explicar o roteiro de viagem,
futucando bem debaixo do tapete da memória os nomes das cidades pelas quais o
ônibus passaria e furtando do irmão a lembrança de que pelo menos oito horas os
separariam de casa.
De repente, depois de dadas as
explicações e orientações de viagem – que incluíam um pedido encarecido para
que o uso do banheiro só fosse feito com a permissão e acompanhamento da mamãe
-, ele disse: Manoel, você sabia que mil é mais que oitenta?
O ônibus, devo advertir, era
muito silencioso. Mal se ouvia o barulho do ar saindo pelas entradas acima de
nossas cabeças. Mal se ouvia o atrito dos pneus na estrada. Mal se ouvia o
pensamento de quem só ansiava chegar a seu destino. Porém, o rompante de doçura
do irmão de Manoel dissipou o silêncio em risos fartos e genuínos. Apreciava-se
ali a inocência do questionamento.
Acho graça de ver o quanto a
noção de grandeza das crianças difere da nossa. Para nós, dizer que o número
mil é maior que o número oitenta chega a ser ridículo de tão óbvio. Para elas,
a curiosidade reside no detalhe que não teme ser óbvio, caricato ou evidente. A
inocência não se importa com o revestimento que possam lhe dar, não se importa
com o rótulo ou com o riso. Simplesmente paira, espalha seu gingado por entre
os conceitos já formados de quem perdeu o dom de duvidar.
A curiosidade de Manoel foi
instantânea. Respondeu de forma veemente: “Sério, Luiz?”. Sério, Manoel.
Seríssimo. E esta, saiba de antemão, é apenas mais uma das coisas óbvias que
você vai aprender na vida, mas que vai precisar ouvir repetidas vezes até
talvez se convencer da seriedade.
Mil é mais que oitenta. Amor é uma
grandeza cuja medida o homem desconhece. O sol nasce e se põe todos os dias,
mesmo que entre um fenômeno e outro a gente as vezes não compreenda os
desígnios de Deus pro nosso caminho. Gentileza é um dos combustíveis mais poderosos
de que dispõe o homem. Os impostos precisam ser pagos, inevitavelmente. Você
vai se machucar, mais inevitavelmente do que pagar impostos. Mas nada será tão
delicioso quanto chegar em casa e ter alguém te esperando. Foi assim que a
minha viagem acabou. E é por isso que eu sempre corro atrás de começar uma.
Porque nada se compara ao sentimento de retornar.
(Feliz de quem tem um lar. Que é pra onde nosso coração não se cansa de voltar...)
Nenhum comentário:
Postar um comentário