Não sei se posso precisar o grau de expansão das tuas pupilas naquela noite, tampouco se o suor que escorria do seu rosto era somente retrato da excitação por me ter por perto de novo ou se o tempo realmente não colaborou meteorologicamente com o nosso reencontro.
O que posso precisar é que teu semblante me lembrou a noite em que te conheci. Riso frouxo, incontido, ao mesmo tempo afogado num canto, tímido e receoso de ser descoberto. Era carnaval e você naturalmente não queria ser desmascarado. E não foi. Permaneci na crença de que teu riso incontido nunca teria por fonte o olhar dirigido a mim.
Até que, conversa vai, conversa vem, longe de casa, longe até mesmo da própria lucidez que a gente guarda pra essas ocasiões, você me prova por A mais B que aquele riso era meu. Invade um espaço que eu nem sabia que tinha reservado pra você. Sussurra baixinho o meu nome, com as pernas entrelaçadas às minhas, enquanto eu só consigo pensar no tamanho da enrascada que você podia representar. E eu não queria sair dos teus braços nem por um decreto, o que comprova que a minha lucidez, de fato, havia ficado em casa.
Era noite. Não sei se o céu tinha nuvens ou estrelas. Não sei que música tocava no quarto ao lado ou quem repousava a cabeça por ali. Não sei a cor do tapete da porta ou se a área comum estava cheia de gente que também queria fugir da solidão. Minha única preocupação era permanecer inerte, ali, imóvel, com você, pra sempre, ou pelo menos até que a gente sentisse uma caimbrã insuportável e fosse obrigado pela biologia do nosso corpo a mudar de posição.
Me lembro de abraçar a porta quando você foi embora, como faziam as atrizes apaixonadas nas novelas. Fiz igualzinho. Um arrepio esquisito tomou conta de mim. Um arrepio que não era de frio nem de medo, mas da latente consciência de que aquele momento faria parte de mim para sempre, mais do que eu queria admitir. Um arrepio quase doloroso de saber que ali acabava uma cena da minha vida para a qual eu desejaria retornar pelo menos uma centena de vezes nos anos seguintes, mesmo que em completo e absoluto sigilo. E retornei, em pensamentos.
Debaixo dos restos de confetes sendo varridos da avenida e do fim de mais um carnaval, finalmente retornei pra você em vida e, só então, tanto tempo depois da primeira vez que te vi, entendi o que o poeta quis dizer com ouvir uma cantiga de ninar nas cinzas no fim do mundo.
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