Despeço-me da pessoa que me tornei aqui. Das ruas que me conhecem há décadas. Dos becos que explorei, ora perdida, ora buscando algo que nem sei se encontrei. Despeço-me do desfiladeiro de ipês, das ruas estreitas e do ar seco entrando pelas narinas. Das casinhas com gente sentada na porta no final da tarde. Despeço-me do lugar que chamei de casa e para onde voltei incansáveis vezes por crer que de fato era. Despeço-me da pessoa que imaginaria ser se continuasse aqui. Despeço-me também do que não pude ser. Despeço-me do mergulho no rio que não dei e das águas que já não são mais as mesmas de quando cheguei. Despeço-me dos rostos familiares com os quais cruzava na rua. Despeço-me dos bairros, das praças, da lojinha de bugigangas. Despeço-me, enfim, dos lugares em que estudei, cresci, compartilhei amores, amigos, cafés, lágrimas e conquistas. Despeço-me dos desfiladeiros de onde quase pulei uma centena de vezes em imaginação e de todos os recomeços que o mesmo sol que me cegava me fazia crer possíveis. Conheço de cor e salteado a entrada e saída deste lugar. Sei como chegar, como sair e apenas pelo ar consigo dizer se estou perto. Ainda que me sequestrassem a visão eu saberia voltar pelo rastro do olfato. Esta cidade me talhou, me poliu, me assistiu em fases que, se não houvesse testemunha, eu arriscaria dizer que nem sequer existiram. Despeço-me da árvore que te dá o nome sabendo que marquei o meu nome no teu caule. Despeço-me como quem não sabe dizer adeus. Por isso, até logo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário