Fecho os olhos e enxergo o arco do teu sorriso se voltar para cima, denunciando a alegria que os lábios mudos tentam esconder. Um jeito seguro de dizer tudo sem se pronunciar.
A mágica dos sorrisos é mesmo indistinta: parece denunciar segredos ocultos, como muito bem guardá-los pr'outra ocasião, escondendo-os com um beijo embriagado.
Ele sorri com sorriso de quem traz babagem. Sorriso de quem conhece muito bem o peso que carrega e morre de medo de misturar com a bagagem de outro alguém.
É um daqueles risos marcados pela paisagem do retrovisor da própria vida, das mastigações repetidas de um amor perdido, dos copos esvaziados repetidamente pela noite, de toda esquina que lhe fez freguês de um meio amor. É um riso ressentido de quem já não aposta as próprias fichas porque conhece a dinâmica do jogo.
Prefere, com razão, levantar bandeira branca, esquecer a poesia dos dias a dois, vangloriar-se das manhãs em que acorda só, respirar aliviado o sofrível ar de quem apenas consente o fim de algo que crê ter conhecido sob o nome de amor.
Ele não sabe ainda, porém, que trago nos lábios tintas de todas as cores para bordar nessa bandeira branca inteirinha e raptá-lo da desistência precoce de renunciar aos seus olhos nos meus por mais tempo. Não temo cicatrizes.
É isso que o amor faz quando bate feito moeda jogada na fonte com muita fé: mágica. Queima sem decompor qualquer das partes. Tensiona o corpo inteiro e alivia o peso das horas com a nudez escancarada de quem sabe que tem para onde voltar. Ou ficar. Como um porto.
Ordeno, então, a chegada ao cume. Ainda que ate lá trezentas bandeiras precisem ser destituídas, coloridas e novamente fincadas d'onde possam servir de lição aos viajantes de que nenhuma força é tão poderosa quanto o amor quando se permite que assim seja.
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