sábado, 2 de dezembro de 2017

ATÉ SEGUNDO AVISO

Zygmunt Bauman, sociólogo já falecido, instituiu um conceito chamado amor líquido. Na era da fluidez das relações, amor líquido é aquele laço humano frágil que não dura, não sobrevive, não guarda o ânimo de ser definitivo. Resiste apenas até que o próximo modelo de mercado seja lançado, até que deixe de ser novidade, até que haja outra opção. Se conecta e desconecta na mesma velocidade de uma curtida. Não há concretude, solidez, resistência. É superficial e veloz. Relações são tecidas e rasgadas por pura conveniência física. Almas se desconhecem a cada esquina.

Sempre acreditei que cultivar opções no amor é fraqueza de caráter. Quando se está com alguém pra valer, não é preciso plano B, válvula de escape, terreno para o flerte. Não é preciso cozinhar alguém em banho maria na esperança de que a fila ande logo que a relação em curso termine. Acredito em doação, em ter o coração contente por crescer com alguém, ainda que isso exija esforço constante e diário de superação e, enfim, muito amor. Acredito em amar alguém mesmo quando se odeia. Sobretudo quando se odeia. Amar o outro apenas quando ele merece é fácil demais porque é quando ele menos precisa.

É óbvio dizer, mas o amor não é fácil. Não é fácil parir e cuidar de uma criança, mas mãe de verdade tem o maior amor do mundo, mesmo cercada de dores e daquela vontade ocasional de sair correndo pra bem longe. Amar significa ter algo por que lutar. Nosso tempo, infelizmente, torna indisponível o desejo de lutar. Na primeira dificuldade, abrir um aplicativo te mostra opções mais belas, suntuosas, disponíveis, fáceis. Troca-se de janela como quem troca de roupa. Amar, então, é perda de tempo. Construir é falta de propósito. Há opção suficiente para passar a vida inteira num intercâmbio infindável de corpos.

É vertiginoso pensar que são poucos os que duvidam da superioridade dessa tese de que a liquidez permite "aproveitar a vida" de verdade. Me regojizo por permanecer no time dos que creem que a melhor opção é encontrar alguém e decidir que não precisa mais continuar escolhendo ou procurando. Os que acreditam verdadeiramente no juramento divino do "até que a morte nos separe" não permitem espaço para fraqueza de caráter, não permitem espaço para amores líquidos, para um desfile de pares.

Eventualmente, é possível que você precise escolher mais de uma vez. A margem de erro da primeira escolha pode ter acidentalmente atingido seu juízo de valor sobre o escolhido. Isso não significa que o amor não exista. Como eu disse, ele não é fácil. E, por vezes, está na porta que se abre logo depois que uma bem dolorida se fechou nas tuas costas e te fez crer ter perdido o rumo. Mas o amor, ah, o amor, ele encontra outra porta para abrir. Outro coração. Outra alma. E quantas vezes forem necessárias, ele te faz acreditar.

Então, Bauman, me permita demonstrar que ainda há espaço para esfacelar esses amores "até segundo aviso" com coragem de verdade. Porque há.

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