sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

CEGUEIRA

Para ler ao som de: Smile - Madeleine Peyroux

Sempre me perguntei como faria para, num momento de cegueira, reconhecer as pessoas que amo.

Tem gente que a gente reconhece pela voz. Aquela voz mansa, pacífica, cuja frequência acalma o ritmo do coração e faz poesia parecer música de tão docemente pronunciada. Tem sílaba que soa melhor quando sai da boca de quem a gente gosta, quando cruza os lábios de quem beija nossa alma com o vibrar das cordas vocais. Tem rima que parece mais bonita quando quem diz carrega a mesma beleza. E até as palavras duras ganham o terno requinte de parecerem mais sóbrias quando quem nos diz cuida para que não nos atravessem como faca.

Tem gente que a gente reconhece pelo cheiro. Cheiro de café quentinho, cheiro doce de tangerinas maduras colhidas do pé, cheiro de manhã de domingo, cheiro de cobertor quentinho de inverno mapeado pelo corpo, cheiro de cangote tombado sobre o peito. Tem cheiro que arrepia, que desconcerta, que tira o prumo, que transporta o juízo pra longe, que revira as entranhas. Tem cheiro que só tem quem a gente quer por perto. 

Tem gente que a gente reconhece pelo tato. A mão que afaga, que guarda, que contempla estática a ternura da pele de quem se toca, a mão de quem é o travesseiro da nossa alma, de quem caminha por cada centímetro quadrado do nosso corpo com permissão para envolver a pele no arrepio, o toque de quem cataloga cada ruga do canto da boca, cada dobrinha, cada cicatriz, cada sinal, cada ausência de precisão estilística fincada no nosso corpo.

Tem gente que a gente reconhece pelo abraço. E é dessas pessoas que a gente mais deve cuidar para não esquecer. O abraço guarda o peito, o aconchego, a vontade de ficar. O abraço que te carrega, te envolve, te transporta, se recobre como sentinela dos bons sentimentos. O abraço não mente, não romantiza expressividade, não pulsa em frequência que não possa reverberar. O abraço te diz quem veio pra ficar, te diz quem vale a pena procurar quando voz, cheiro e tato já não derem conta do recado. O abraço te diz quem cuida para que as maçãs estejam sempre geladas só porque você gosta delas assim. O abraço te diz quem aninha os pés quentes aos teus pés frios para se certificar de que os seus não estarão sós na noite gelada.

O abraço - se me perguntassem hoje, eu diria - é como reconheço alguém que verdadeiramente amo. E a vontade de permanecer nele, devo dizer, é o que resume o tamanho desse amor.

"Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve."

(Timidez - Cecília Meireles)

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