terça-feira, 9 de janeiro de 2018

ACHADO

Achei que tivesse perdido a habilidade de me encantar com o outro, a inexplicável sensação de frio na barriga somada ao desejo de rever o mesmo rosto por pelo menos mais uma centena de vezes até o fim do dia.

Achei que tivesse perdido o tino das coisas, o tato ao sentir as linhas do polegar de alguém se abraçando às minhas. Achei que havia desistido de perseguir a felicidade na pupila do outro, na covinha rasa que se abre do ladinho do olho quando esse alguém ri pra você.

Achei que tivesse se tornado ficção científica o desejo quente e tardio de sentir os braços de alguém envolvidos na minha cintura, me puxando pro alto, rodopiando, sobrevoando o escuro atrás das minhas curvas.

Achei que tivesse ficado imune à febre de me sentir uma garotinha novamente toda vez que sei que ele está prestes a vir, de ouvir músicas românticas e sem sentido só pra concordar com o poeta que o amor é mesmo tudo isso aí que as pessoas pregam.

Achei que as minhas membranas tivessem se preparado para não mais permitir a entrada de invasores com o cheiro de calma que você exala. Achei que depois que a última porta se fechou nas minhas costas o amor já era pra mim, até que você apareceu pra achar de volta pra mim tudo o que eu pensava que havia perdido.

Desde então, continuo me concentrando nos achados. E cuido para não me perder de você.

(Nem de mim...)

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