quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

PROPÓSITO

Dia desses estava enfadada das leituras cotidianas às quais me dedico, todas de cunho profissional. Resolvi me debruçar sobre um livro que - ao menos à primeira vista - não me criasse a expectativa de esperar nada demais ou o instinto natural de querer tirar grandes lições.

Quando eu era mais nova, usava como referência do que não ler todos os livros que eram divulgados na lista de best-sellers da semana na revista Veja. Dessa vez foi justamente a ela que recorri para escolher a próxima leitura. Pensei comigo: algo para desopilar.

Escolhi "A Sutil Arte de Ligar o Foda-se" (arte esta que eu claramente desconheço), de Mark Manson (autor igualmente desconhecido para mim).

O livro não me surpreendeu. É um desses contos de autoajuda, cheio de chavões e frases de efeito, mas associada a uma meia dúzia de palavrões e a tentativa de parecer cool para jovens velhos.

Entretanto, a certa altura uma reflexão bastante pertinente veio à tona e é dela que quero falar. A maior parte das pessoas busca os mesmos propósitos de vida: ter uma família feliz, um emprego bacana, um parceiro fiel e amoroso, carro do ano na garagem, filhinhos gorduchinhos com cabelinhos cortados em formato de cuia e não precisar se preocupar com a inflação na hora de fazer o supermercado. Natural que seja assim.

Porém, a real pergunta sobre propósitos não é "o que você deseja na vida?", mas "quais sofrimentos você está disposto a enfrentar para alcançar o que deseja na vida?". Somos acostumados a comemorar a chegada no topo da ladeira, mas incentivados a reclamar incessantemente da subida ou, muitas vezes, sequer tentar encará-la.

De fato, esse caractere é marcante na minha geração. Todas as minhas amigas querem relacionamentos maravilhosos, mas sou capaz de contar nos dedos de uma mão quantas estão dispostas a enfrentar momentos realmente difíceis ao lado do parceiro, aguentando todas aquelas encrencas negativas que os filmes de comédia romântica esqueceram de mostrar quando desenharam o perfil do grande amor.

A maior parte das pessoas que se formaram comigo está estacionada em algum ponto da trajetória entre sair da faculdade e se tornar um profissional de excelência. Não é porque são incompetentes. É porque não estão verdadeiramente dispostos, ou porque não encontraram o real propósito para chegar onde querem (isso quando sabem o que querem). E não os culpo por isso.

Eu mesma - para me incluir no bonde dos errantes - vivo prometendo para mim mesma engordar os 5kg que figuram nas minhas listas de metas do ano pelo menos desde que eu tinha 15 anos (caso você não saiba fazer contas, isso foi há quase dez anos). Já tentei remédio, suplemento, comida, musculação, dormir trezentas horas direto, fazer oração pra santo que não existe, e também pra santo que existe, e maldizer todos eles depois de subir na balança e ver que nada mudou. A questão é que não mantive constância nesse hábito. Aparentemente, meu real propósito de vida nunca girou em torno de me tornar uma musa fitness que senta com a perna cruzada e não banha os olhos de ninguém com um escarcéu de celulites.

A questão da construção do hábito tem me fascinado ultimamente. Somos cruamente o resultado dos nossos hábitos e compreender como eles se formam é fundamental para compreender como nós nos formamos e como nossos propósitos se realizam ou não.

Hábito e propósito - saibamos disso ou não, conscientemente ou não - estão mais entralaçados que os fios da trança da Rapunzel. Eles determinam diretamente quem somos e quem nos tornaremos. Os pequenos hábitos e os pequenos propósitos que ignoramos no dia a dia são, pouco a pouco, a ignorância de nós mesmos que deixamos escapulir no caminho.

É interessante constatar como é fácil se perder de si mesmo. Basta escorregar em um ou dois momentos. Basta você dizer num encontro, só para agradar uma pessoa que mal conhece mas que está louquinha pra manter por perto (sabe Deus porquê), que adora aquela banda de folk ridícula que você xingou no mês passado quando tomou o lugar da sua banda favorita num festival de música. Basta você dizer pro chefe que está realmente muito satisfeito com aquele trabalho horrível que não te dá a menor estrutura pra crescer e te motiva a ser um profissional melhor, afinal você paga suas contas no fim do mês. Basta você olhar nos olhos da pessoa que está ao seu lado e tentar se convencer todos os dias de que ela foi feita pra você, mesmo que a gente saiba, lá no fundo, que não deveria, ao menos não nos assuntos do coração, precisar se convencer de alguma coisa.

Abrir mão de si mesmo, tenho aprendido a duras penas, é a forma mais fácil de se desviar do nosso propósito e, consequentemente, cultivar péssimos hábitos. Daqui a pouco, sem a gente nem perceber, abrir mão terá virado hábito tão comum a nossa mente que teremos renunciado a tudo que de mais caro guardávamos: os sonhos, a resposta à pergunta que Mark fez em seu livro. E renunciar, seja ao sonho, seja ao sofrimento, é sempre renunciar em favor de alguém que nunca é quem renuncia. A renúncia não costuma ser lucrativa para quem abre mão. Pense nisso da próxima vez que considerar essa hipótese.



(Post scriptum: 

1) é provável que esse texto não faça o menor sentido daqui a cinco minutos;
2) e que soe o mesmo tipo de proselitismo que você tanto detesta nos livros de autoajuda;
3) e que seja inconclusivo, como tudo aquilo que você escreve)

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