quarta-feira, 7 de março de 2018

MANUAL

A mulher que eu amo não veio com manual de instruções. Se veio, rasgou no primeiro momento em que se viu consciente de que alguém havia presumido conseguir entendê-la e decifrá-la por completo.

Ela é dura na queda. O olhar desconfiado debaixo da sobrancelha arqueada dificilmente arreda o pé por alguém. Será preciso resistir bravamente às chacoalhadas que ela vai te dar quando tentar se aproximar. Mas garanto que ela valerá o esforço. Você nunca vai querer ser o cara do lado de fora da janela observando a vida que ela construiu com alguém que soube olhá-la do jeito certo.

Logo logo será preciso esconder o riso apaixonado toda vez que ela quiser provar uma tese ou demonstrar um ponto de vista. Ela é um daqueles raros exemplares de gente que ama o que crê sem se deixar corromper por isso. E ela te faz querer acreditar também, só pra ver o mundo com os olhos dela.

Ela levita todas as manhãs quando salta da cama na ponta do pé pra não desmontar meu sono leve. Ela é meu sono, meu recinto, meu resguardo, meu altar. É singular na arte de me fazer apreciar o pedacinho de brasa diária que alimenta a fogueira da vida. Me faz olhar pras coisas banais e me sentir extremamente sortudo. Me faz escrever textos assim, o que já diz muito sobre o efeito que ela causa.

Ela guarda as minhas cicatrizes, e cuida para não ser a razão de mais uma. 
 
Ela sabe - de um jeito enigmático e paranormal - quando eu preciso ficar em silêncio. E compreende minha sede de viver mesmo quando não mergulha comigo no mundo inteiro que eu criei dentro de um diário de bordo. Ela me faz querer ir. E me faz querer voltar. E querer ficar. Pra sempre (ou só até me convencer novamente de que o mundo lá fora tem coisa demais a oferecer pra eu ficar sentado no sofá vendo o campeonato da série B).

Ela reescreveu metade das minhas certezas. E eu nunca fui do tipo que muda de opinião muito fácil. Mas ela é a sensatez. Ela tem um filtro dos sonhos pendurado na cabeceira da cama, lê Tolstoi como se fosse comum entender o que ele diz, mistura toda a comida no prato até parecer uma montanha de entulhos. Ela é uma hipérbole, sinestesia, paradoxo. Parecer uma aula de português, mas é só a mulher que eu amo.

Ela espalha o shampoo na cabeça começando pela nuca. E eu só sei disso porque é pouco provável que eu consiga descrever o quanto uma cena tão banal pode ser, ao mesmo tempo, tão sexy. É importante, contudo, que você não a deixe saber que está sendo observada. Ela se envaideceria de um jeito ainda mais difícil de resistir.

Ela sempre coloca a chave de casa no segundo gancho atrás da porta. E faz isso de um jeito tão instintivo que é como se ninguém precisasse comprovar que ali era seu lar. Ela é meu lar, é onde quero pendurar todas as minhas chaves no fim do dia. Por ela eu penduraria as chuteiras. Minhas e da seleção brasileira inteira.

Ela vai ligar o liquidificador na hora da sua parte favorita do jornal. E vai te pedir pra pegar objetos espalhados em todos os cantos possíveis da casa porque simplesmente não sabe ir de um cômodo a outro levando tudo que precisa. Ela vai quebrar lâmpadas tentando trocá-las. O único jeito de dar à luz do jeito certo é me dando um filho ou um sorriso. No mais é só desastre.

Ela se apressa em fazer a rotina parecer mais aprazível do que de fato é. Se apressa em consagrar como um signo ímpar o amor que a gente constrói na hora que o sangue esquenta, que o bicho pega, que é preciso flutuar sobre as pequenas durezas da vida. Ela é meu acorde favorito, meu tom, meu refrão. É meu repouso idílico, meu picolé Magnum, todas as fitinhas do meu GameBoy.

Leia atentamente as instruções. Esse pode não ser um manual, mas é um pouco do que o amor tem de melhor: a prova de que todos os recursos presentes no outro dependem do nosso olhar atento a quem caminha conosco o passo quietinho dos dias.

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