Para ler ao som de: The logical song - Supertramp
Depois de levar uma topada e escorregar nas certezas que guardava como parte de mim, fui obrigada a sentenciar que nunca mais deixaria a zona de conforto determinar o meu caminho.
Escolhi novos restaurantes, novos rostos, blusas com uma modelagem diferente. Agora uso relógio no pulso. Faço exercícios físicos. Como salada. Não tenho redes sociais. Entro em guerra com minha mente diariamente para me convencer de que a vida que eu quero e a que vivo estão separadas por um passo que somente eu posso dar. E tenho, perigosamente devagar, dado.
Há alguns dias perdi meu avô. Ele vivia com câncer há doze anos, mas não sabia porque sempre escondemos dele. Nunca apresentou qualquer sintoma. Colocou uma xícara inteira de açúcar no cuscuz até o último dia de vida. E foi feliz desse jeito, com o emblemático chapéu na cabeça e contando piadas repetidas dia após dia.
Ao pensar nele, acreditávamos que morreria porque o câncer teria se espalhado a ponto de comprometer os órgãos vitais. O velho infartou, dias depois do aniversário que teria enfim reunido a família inteira. E sua preocupação era saber quem ia comprar o pão. Rezou, mesmo que diversas vezes tenha repetido que já não sabia mais fazê-lo. Pediu perdão aos filhos pelas suas faltas. Infartou novamente, e desta vez nos deixou.
Se despediu da vida sob as lágrimas de sete filhos, netos e bisnetos cujos dedos da mão não são capazes de contabilizar e mais uma carrada de gente que seguiu a trilha de terra do meio do fim do mundo pra se despedir dele.
Pela primeira vez presenciei a morte de alguém próximo com a lucidez que só a idade nos permite compreender. Vi minha mãe enterrar seu pai. Um velho franzino e forte, aquela aparente contradição que só faz sentido se a gente estiver falando de um sertanejo - "antes de tudo, um forte". Nunca antes eu havia visto uma tristeza tão grande se imprimir no semblante de minha mãe.
Parece que crescer é isso: ver fraqueza nos olhos dos nossos pais. Se sentir mais humano, mais próximo da morte e de Deus como nunca. Perder a inocência e perceber que eles falharam feio porque tentaram muito acertar. E quando acertaram, acertaram pra caramba. E também comemoraram, porque fizeram tudo sem receita.
Hoje acordei ciente do quanto minha atmosfera de vida mudou, do quanto eu aprendi coisas que somente o sofrimento ensina e do quanto ainda tenho a aprender. Não pedi nada a Deus. Acordei completamente sozinha, com obrigações a cuidar, com a cabeça fervilhando de pensamentos.
Tudo que eu vivi em todos esses anos pareceu muito pequeno diante da percepção tão palpável que tive da morte. Não quis checar a vida alheia ou curtir a última publicação de quem quer que seja. Não quis questionar as razões de nada. Só quis cuidar do que precisava ser feito, e torcer para ter tempo de fazer a vida que sonhei pra mim ser real, podendo compartilhá-la com quem realmente importa pra mim.
De tudo, o que apontou mais forte no meu peito foi a certeza de que todas as bagagens que carregamos na vida espreitam a morte na beira da cova. Nada vai embora com a gente: títulos, posses, domínios, quantidade de publicações no currículo lattes, dígitos antes e depois do zero na conta bancária, marca dos sapatos. O único legado que faz sentido é o amor. Ele te faz viajar quilômetros para dizer adeus. Ele te faz chorar copiosa e impiedosamente por alguém. Te faz questionar a coerência de tudo que tem vivido. O único legado da vida é o amor de quem fica.
Meus avós foram casados 58 anos. Educaram sete filhos com pouquíssimos recursos. Meu avô tinha um milhão de defeitos que sou capaz de enumerar. E, mesmo assim, não faltou quem o amasse e chorasse por sua partida.
Joguei a última flor antes de sua cova se fechar. E abri para mim mesma o espectro de luz que hoje, creio, conduzirá minhas escolhas para o caminho onde possa partilhar cada conquista e cada queda com quem deseja o mesmo comigo. Insisto, só o amor nos permite dignidade na chegada, no caminho e na partida. E é assim que eu também pretendo ir: amando e sabendo que fui muito amada.
"Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."
E
ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e
toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que
transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
1 Coríntios 13:2
1 Coríntios 13:2
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