Era tarde da noite e o relógio fazia maratona: corria feito doido, um ponteiro atrás do outro, incessantemente. Era assim sempre que estávamos juntos. Lá fora havia resquícios da chuva que amansou o dia e o início da noite, deixando no ar um frescor típico dos dias chuvosos, dos finais felizes e dos momentos em que o mocinho consegue se salvar do vilão nos filmes de ação.
Olhávamos nossos dedos da mão entrelaçados como quem faz uma promessa silenciosa que nunca será quebrada. Você me disse, sem pestanejar, que queria o pacote completo comigo e que isso incluía noites sem dormir, fosse por bons ou maus motivos. Entendi, pela primeira vez, o significado de sentir o coração parar por alguns instantes.
Eu havia andado perdida por muito tempo. Olhava para as relações ao redor sentindo o vazio de quem não encontra o que procura. Me sentia no fim das buscas por um livro raro desaparecido e pronta para desistir de determinar seu paradeiro. E por muito tempo achei que soubesse o que procurava. Foi quando descobri que o que eu procurava era apenas reflexo da insegurança que projetava nas relações e você veio, do jeito mais despretensioso possível, me mostrar que eu podia procurar mais.
Pestanejei. É difícil acreditar no começo. Difícil acreditar que alguém te queira na sua melhor versão, ainda que isso possa custar caro, ainda que possa te afastar. Crescer dói e envolve se desprender das roupas que não cabem mais no corpo. Algumas pessoas vão te pedir pra guardar essas roupas esperando que você volte um dia a caber em cada uma delas. Outras vão te incentivar a buscar novas formas, modelagens, cores que te favoreçam. É com estas últimas que você deve ficar - roupas e pessoas.
Não tardou a sentir que sua companhia melhorava a qualidade do meu tempo. Dessa vez eu não precisava de você como achava que precisava de outros caras em outros momentos. Eu sabia de todo o meu coração que não precisava de você. Eu apenas te queria por perto e isso era suficiente para me fazer concluir que ali havia o sentimento mais genuíno de pertencimento que eu já havia vivenciado.
Quando a gente precisa de alguém é como se em vez de 100% fôssemos apenas 70%, às vezes menos. E a outra pessoa fica responsável pela parcela restante, o que invariavelmente transfere para um estranho o encargo de proporcionar uma alegria que deveria ser genuína, orgânica.
Você restaurou a minha crença. E acreditar, o mundo inteiro sabe, depende de muito mais do que de simples boa vontade. Você me deu provas sem que eu sequer as tenha pedido. Você pousou a mão sob as minhas cicatrizes como quem pede perdão pelo que outra pessoa fez, como quem tenta subtrair para si a dor, como quem exerce autoridade pela defesa contra tudo que possa ferir novamente.
Sempre escrevi cartas de amor, você sabe, mas nunca como as que saem dos meus dedos quando o assunto é você. A indústria de cartões deixou de ver em mim uma cliente rentável porque agora é mais do que simples repetição de um clichê aleatório. Agora, como nunca, como se fosse preciso registrar, grito em folhas mudas que você reorganizou a baderna e o caos que eu havia feito na gaveta dos meus relacionamentos. Você retirou o amargo, o azedo, ressignificou o doce, deixou tudo colorido como decoração de carnaval.
Queria te dizer, amor, que vez ou outra me belisco, só para sentir concretude nisso tudo. Só para não deixar aparentar que algo tão bom é devaneio meu. É como se a dor do beliscão me situasse de volta no mundo que nos fez crer que só se aprende pela dor.
Quanto a mim, digo e repito que venho aprendendo por doces e suaves parcelas de amor. E que torço e me empenho para que a fonte nunca se esgote. Quero aprender a gente a vida inteira. Quero amplificar para o mundo inteiro esse amor que de tão bom parece ter sido escrito diretamente por Deus.
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