Nem
todos os acontecimentos referidos nos meus textos são fruto da
realidade. Muitos, devo admitir, são mera suposição do meu inconsciente
ou capricho do meu eu-lírico. Tenho sobre tais fatos licença poética.
Posso pintar e bordar.
No
caso de hoje, contudo, abro mão das firulas e dos lirismos para
reproduzir a singeleza de uma situação que não merece enfeites.
Aqui
no Nordeste já teve início a temporada de festejos juninos, uma das
minhas épocas favoritas do ano. Basta sair na rua para sentir, além do
friozinho característico (coisa rara para nós), o cheirinho das comidas
típicas, a rua enfeitada de bandeirolas, os passos ritmados de dança, ao
som, claro, de uma bela sanfona.
Pois
bem. Fui a um arraial com duas amigas de longa data e tive um prazer
que vai além de desfrutar da companhia delas. O trio que tocava e
embalava os festejos da noite era composto por um sanfoneiro de mais
idade, imagino que por volta de setenta anos.
Tocava
com rapidez e precisão. Tinha ritmo e suavidade. Parecia feliz e entrou
a madrugada com a disposição que nós, jovens em idade cronológica, não
tínhamos a oferecer.
E, não bastasse, era cego.
A
sanfona é um dos instrumentos mais difíceis de tocar. E aquele senhor
tocava com a maestria de quem parecia dar de ombros à própria limitação.
Tive a impressão de que se lhe arrancassem os braços, ainda assim
descobriria outra forma de tocar.
Dizem
que quando a corrente tem força, não importa quais obstáculos a
natureza lhe imponha, o curso das águas alterará sua rota para chegar a
seu destino.
Quando
me dei conta disso, senti vergonha. Vergonha por sedimentar em
pensamentos, palavras e gestos tantas limitações que sequer posso
seguramente afirmar que tenho.
E
devo dizer que poucos sentimentos são tão confrontantes como a
vergonha. Bradshaw diz que ela nos faz dar conta de que somos finitos. E
a finitude assombra o homem.
Na
particularidade que encontrei naquele senhor assustou muito mais o que
vi em mim. Dele me admirei, de mim tive dó. Afinal, ele é um senhor de
idade cego, a quem a sociedade facilmente perdoaria se estivesse parado
reclamando da própria condição. Era uma afronta ao conforto do meu mundo
saber que ele não se conformava.
Pensei rapidamente em todas as vezes que desisti.
E
no alto do meu embaraço, desisti de desistir das coisas. Foi como se a
falta de visão daquele homem aguçasse meus outros sentidos e me
mostrasse, sem filtros, que eu posso esperar mais de mim.
Ou melhor: que às vezes é preciso parar de esperar. E (re)agir.
ORIGINARIAMENTE ESCRITO EM 2018.
ORIGINARIAMENTE ESCRITO EM 2018.
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