Para ler ao som de: Chopin - Nocturne Op. 9, No 2.
Walden é uma narrativa descritiva sobre a vida de Thoreau afastado
da civilização, modo de viver que escolheu e fez seu por dois anos e dois
meses, em casa construída por suas próprias mãos, à beira de um lago
estadunidense. Crendo que o modo de vida preconizado pelos homens parte de um erro
e que passamos a vida em sereno desespero erroneamente encampado como se fosse
mera resignação, Thoreau descreve a busca pela representação exata do que é
viver somente com o essencial, em contato com a natureza e com os livros.
Thoreau propõe não só o alinhamento a um modo de vida simples e
minimalista como também a propósitos espirituais e pessoais capazes de fazer o
homem compreender o que de fato é vida e aniquilar tudo aquilo que apenas
queremos fazer parecer que é. Em uma de suas célebres passagens, ele se refere
à necessidade de sugar todo o tutano da vida, para que no momento da
morte ninguém descubra que na verdade não viveu.
Lançado em 1854, Thoreau preocupou-se em fazer relatos descritivos
de seu modo de vida, perpassando desde a localização geográfica até fauna,
flora, subsistência, reflexões sobre a solidão e a natureza em geral e, ainda,
respondendo a perguntas diversas que lhe foram feitas após seu retorno à
civilização.
Thoreau inicia Walden fazendo algumas advertências ao leitor, sendo a
primeira delas a de que o livro será conduzido em primeira pessoa, uma vez que ninguém
poderia melhor expressar as vivências senão quem as propriamente ultrapassou.
Trata-se, portanto, de uma narrativa autobiográfica, o que, devo dizer, torna a
história ainda mais interessante e dá a sensação de pertencimento ao leitor.
Este livro soa utópico e irremediavelmente real, num grau quase
físico de sentir e suportar. Critica duramente a vida alicerçada em luxos, por
considera-los força incapaz de conduzir o homem à sabedoria, chegando a propor que são um obstáculo à própria elevação da humanidade.
Não bastasse, minha ligação com ele é quase umbilical. Trata-se,
sem medo de errar, de um dos meus livros favoritos da vida, não à toa. Entre os
meus lemas de vida estão algumas frases do movimento arcadista brasileiro e que
remetem perfeitamente ao universo da obra: “fugere urbem”, em referência à fuga
dos centros urbanos; “locus amoenus”, derivado da ideia de busca por um lugar
ameno em detrimento dos excessos das monarquias; “carpe diem”, mandamento
oriundo da ideia de aproveitar a vida ante da ciência de efemeridade do tempo
e, por fim, “inutillia truncat”, cujo núcleo central é cortar os excessos e
inutilidades, em uma verdadeira ode à simplicidade.
Além disso, Walden representa perfeitamente o universo daqueles
que não se assemelham aos excessos de uma sociedade em que tudo é urgente,
inflamável e polarizado. Coincidentemente ou não, muitos dos lemas
transcendentalistas, movimento integrado por Thoreau, são representativos na
obra, a exemplo do desapontamento com o modo de vida predominante, o idealismo,
a apreciação pela natureza, etc.
O modo como o autor descreve a solidão também é vulgarmente
próximo do meu ideal de que a exigência de convivência social é, muitas vezes,
desprezível e enfadonha. A necessidade de falar o tempo inteiro, mesmo que
pouco haja a se dizer, é marca fundamental de um tempo em que se sobrevive da
imagem que se cria de si mesmo, projetada e irreal, milimetricamente pensada e
enquadrada para fazer as pessoas parecerem melhores do que de fato são.
Sobre a atmosfera do livro, se fosse atravessar os labirintos da
imaginação e me transportar para um panorama ideal, seria similar à descrição
de Walden: uma casa simples à beira de um lago, na qual pudesse desfrutar de
prazeres simples, uma boa leitura, música clássica (Chopin, provavelmente) ao
fundo em volume ambiente, luzes entrando e atravessando os móveis de madeira a
ponto de deixar evidente a poeira de que reveste o próprio ar. O peso imaterial
da solidão vivenciado pelo simples desejo de autoafirmação.
Considerado inspiração para movimentos de contracultura, Walden é
uma obra imprescritível. Ouso dizer, aliás, que é mais atual do que nunca. Até
parece que foi escrita para o nosso tempo.
Poucos livros apresentam tantas passagens em perspectiva como
este. Encerro com a chancela de que o aprendizado constante é ferramenta de
aprimoramento e dele faz parte, indissociavelmente, a própria ignorância, matéria fecunda para que o homem siga razoavelmente lúcido.
“Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está
por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina”.
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