sábado, 2 de março de 2019

RUN, TIME, RUN

O tempo, para quem já caduca, é algoz de todo dia. Sua marca é muito mais forte do que podem demonstrar os ponteiros presos à parede por décadas. O tempo é hospedeiro de dúvidas e questionamentos cíclicos, volta e meia responsáveis pela inquietude das pálpebras noite adentro. Aqui a gente olha para trás e vê uma estreita estrada de chão, sem sinalização, preenchida de fora a fora por pequenas pedrinhas que saltitam quando cruzam com nossos pés cansados. Para frente, vê-se que falta pouco, mas há tempo suficiente para percorrer uma longa jornada de reflexões: vivi o que pude? Se pudesse voltar hoje, repousaria minha cabeça sobre o ombro dela por mais tempo naquela tarde que passamos juntos a ver a lagoa? Se pudesse, escolheria passar o resto dos meus dias com ela, olhando a lagoa? Ou longe da lagoa - que no fim das contas era cheia de mosquitos -, mas com ela? É o ponto da vida em que a gente se pergunta quais pequenas decisões acabaram sendo as grandes decisões da vida. Quais delas nos afastaram e quais nos aproximaram de onde e de quem gostaríamos de ser.

Para quem já caduca, o tempo é um papel manchado a lágrimas, um borrão das anotações que a gente guarda na porta da geladeira para se deparar todos os dias: esqueça o que passou, há muito pouco restante para se lamentar.

Há, porém, um outro time: o daqueles para quem o tempo é promessa. Promessa, a gente sabe, é aquilo que se faz para cumprir no futuro. O tempo, para essas pessoas, é um futuro bem grande pela frente, que mal pode esperar a hora de começar. Os cinco segundos que antecedem a largada de um corredor são um misto de expectativa e insaciabilidade: poderia durar muito mais que cinco segundos mas nunca poderia passar de cinco segundos, senão não seria a mesma coisa. É assim que se sente quem está começando a trilhar o caminho, que, agora, não é estreito e pedregoso, mas pavimentado em via dupla e cheio de placas de alerta, pois o risco de imprudência é invariavelmente maior. Quem começa tem o gás do mundo inteiro para oferecer na largada e não mede esforços para estar próximo do impossível tanto quanto possível. Eles quase sempre não sabem para onde estão indo, mas sabem que a diferença entre possível e impossível é gramatical: basta retirar ou acrescentar um prefixo.

Em ambos os times, nem sempre se tem consciência e lucidez da passagem do tempo. Por vezes há apenas uma névoa anunciando que os dias estão passando, mas que não necessariamente empresta aos olhos a visão de que algo está escorrendo entre a rede que embala nossas vivências. É comum que a gente só se dê conta aos 78 anos, à beira do último suspiro, vendo o sol nascer o mesmo de todos os dias mas pela última vez, enquanto se dedilha um violão também pela última vez e quando as lágrimas anunciam que a consciência pode chegar tarde demais para quem nunca teve pressa. Há momentos na vida em que até os ateus aprendem a rezar, esse deve ser um deles.

Da próxima vez que ouvir o "tic-tac" do relógio, lembre-se de que o caminho, sinalizado ou não, tem um tempo para ser percorrido. E felizmente - ou não -, o tiro de largada já foi dado. É hora de correr.

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