Ando escutando à beça Bezerra da Silva. Com a precisão milimétrica de um cirurgião plástico e a delicadeza de um ortopedista diante de uma fratura exposta, ele expunha corajosamente mazelas antes veladas, ínsitas aos morros. Ferrenho crítico da polícia, protagonista de discos em que aparecia na capa com o dedo no gatilho de uma arma, penso o que Bezerra diria do mundo de hoje (que, às vezes, assustadoramente, parece tão igual ao que ele descrevia - só que pior).
Todo dia tenho algum pensamento esquisito. Anoto vários num caderninho que carrego pra lá e pra cá, como um amigo imaginário que nunca me responde, mas é um excelente ouvinte. Como Deus, diriam alguns. A falta de alguém do outro lado me povoa de imensa vontade de retorquir o universo, quem diria. Como se a introspecção naturalmente minha vez ou outra precisasse admitir que cansou do unidirecional, que precisa do outro, do vínculo, do contraponto, mas não de qualquer um.
Sinto falta do bate papo frescobol, aquele a que Rubem Alves se referia quando disse: "o frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir...".
Ele se referia a relacionamentos amorosos, mas acredito que a lógica se aplique a qualquer relação. Tão gostoso conversar com quem não divide o mundo em um maniqueísmo de dar dó, cheio de verborragia, de muros de Berlim que parecem jamais ruir. Às vezes sento na minha cadeira de balanço, coloco o disco na vitrola e tenho diálogos imaginários com alguém sentado na cadeira ao lado. Na vitrine da minha sacada falta algo, mas isso não impede que eu recrie o cenário. O vento, nem sempre leve, me leva. Alguma literatura me distrai. O café esfria, amarga. A vida volta a acontecer ao redor.
Estou lendo "Atos humanos", de Han Kang, auora Nobel de literatura de 2024. Vez ou outra careço do amparo que só outra voz oferece: o diálogo. Sozinha, sou milho. Milho precisa de intervenção externa pra se tornar canjica, mungunzá, pipoca, pamonha. Gostaria de gastar as horas falando da guerra, da humanidade capaz de - em uma só - perfilar horror e solidariedade, como duas faces de uma moeda. Gostaria de dizer que essa leitura me lembra Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt, e a banalidade do mal que vive adormecida em cada um de nós, esperando a flecha que vai, talvez, despertá-la.
Sinto as pulsações das minhas veias em vários cantos do corpo, como se ele me avisasse da vazão que dá ao fluxo de mim mesma. Circulo palavras que não conheço nos livros e cada dia circulo menos, não por que sei mais, mas talvez por ler menos novidade. Há um horror no ar de produções artísticas cada vez menos singulares e volto a me assustar com a imagem de sermos todos iguais, se é que já não somos e duvidamos disso por pura arrogância.
"Não há nada mais sozinho do que ser inteligente", canta Sérgio Sampaio, e talvez me autoproclamando inteligente possa finalmente encontrar no verso a explicação pro meu mal estar.
Para ouvir:
- Bayon - Stell dich mitten in den Regen
- The Cinematic Orchestra - That Home
- Bezerra da Silva - Quando o morcego doar sangue
- Sérgio Sampaio - Sinceramente
- Joy Division - Disorder
- Jessé - Porto Solidão
- Engenheiros do Hawaii - Ninguém = Ninguém
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