segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Multiverso

Acabo de terminar o último livro do ano e achei que um dos insights tinha tudo a ver com o blog. No roteiro, a história da personagem é contada partindo da teoria do multiverso. Em resumo, a partir de um determinado ponto onde uma decisão lhe era imposta, uma série de novos enredos surgia, a depender do que fosse escolhido. Havia universos paralelos a esta vida e em cada um as coisas eram diferentes.

É inevitável imaginar qual foi o evento determinante para que estejamos exatamente aonde estamos hoje. Ou qual sucessão de eventos nos trouxe a este lugar no tempo e no espaço.

Este blog surgiu por pura falta de afinidade minha com a realidade. Sentindo-me inadequada, incompreendida, colocava minhas estranhezas numa mochila e carregava até quando, enfim, pudesse vir aqui e simplesmente descarregar. Foi assim durante quase toda a adolescência, embora nem todos os textos tenham sido efetivamente publicados. Este espaço, fazendo jus ao nome que carrega, era a minha materialização da teoria do multiverso: sempre foi o meu universo paralelo.

Olhando em retrospectiva, ele foi sendo engolido por emoções confusas, paixões e relacionamentos que fui angariando, dúvidas existenciais, desabafos, expiações, até o ponto em que não se sabia mais ao certo o que, dentro de cada texto, era ou não realidade.

Se existisse um multiverso da minha própria história, sei que alguns enredos possíveis teriam sido contados por mim, aqui mesmo. E gosto de imaginar que outros, muito improváveis, também teriam tido espaço pra existir. Talvez eu tivesse me formado em psicologia na federal e, se assim fosse, tivesse cortado uma franja curta bem esquisita, usasse óculos redondos, brincos de pena, fosse vegana e carregasse uma sacola ecológica com a frase "meu corpo é minha combustão" e chamasse Caetano Veloso de Caê. É uma imagem caricata, generalista, óbvio. Mas...e se?

E se eu não tivesse terminado aquele namoro de três dias com o garanhão do colégio por quem eu era perdidamente apaixonada? Talvez tivesse me despedido bem mais cedo de algumas inocências, talvez estivesse, hoje, com um bronze lindo, morando na beira da praia e ganhando dinheiro com algo como tráfego pago, e tivesse um cachorro chamado Mortadela.

Nem mesmo a versão conservadora escapa à mente. E se eu tivesse me formado no curso que meus pais queriam, tivesse me casado com o primeiro namorado, me concursado para um cargo de sucesso, tido três filhos, dois cachorros, um SUV e vivido o roteiro esperado para alguém dentro dos padrões de sucesso ordinários?

Não vamos esquecer da versão em que, aos 40, eu decido fazer transição de carreira, namorar mulheres, faço mechas roxas no cabelo, tatuagens no braço e um mochilão pra Europa, só pra depois voltar, morar num flat descolado, adotar um gato e trabalhar com confeitaria.

São infinitas as possibilidades e quase todas elas partem de uma profissão, de um romance, de um espaço geográfico determinado, de uma grande decisão. Não é como se escolher lasanha ou strogonoff pro almoço fosse determinar o rumo da vida de alguém (embora possa).

Mesmo assim, acredito no poder das decisões pequenas, das minúsculas covardias ou das sucintas coragens que ecoam no futuro sem que a gente perceba.

Lembro-me exatamente do dia em que decidi ser mais carinhosa. Fui a uma consulta médica com uma profissional homeopata que fazia perguntas existenciais a pacientes adolescentes. Em dado momento, ela perguntou se eu era carinhosa e minha mãe fez que não. Aquele momento durou uma fração de segundo, mas desde então passei a abraçar mais minha mãe, beijá-la, dizer que a amo. Sabem, na minha família não fomos criados com toque físico ou palavras de afeto. Fomos criados de forma rígida, às vezes dura, para nos tornar sujeitos honestos, honrados e bem sucedidos.

Mas em três segundos eu me tornei mais carinhosa. Em algum multiverso, aqueles três segundos podem ter ressoado de outra maneira e eu continuei, talvez, sendo a menina que não foi habituada a receber carinho e que, por isso, não reproduziu. Outros fatos, pessoas e caminhos ao longo da vida também me comunicaram a importância do carinho. E eu mudei.

O que eu talvez queira dizer é que, muito embora grande parte da nossa vida seja definida por uma série de grandes decisões - com quem vou me casar, no que vou trabalhar, onde vou morar, etc -, há pequenas decisões cujo impacto pode passar despercebido. 

No multiverso a que apelidamos de realidade, vejo que boa parte de como lidamos com as coisas depende do nosso poder de autorresponsabilidade. Declarar que a vida seria melhor em outro multiverso é fácil, mas quais escolhas precisariam ser tomadas - e quais consequências suportadas - para que aquela versão da vida se sustentasse? 

Cometi inúmeros erros ao longo da vida. Imensos, estúpidos, insidiosos. Perdi as contas de quantos. Demorei a me perdoar de uns tantos. De alguns até hoje não pedi perdão. Entendi que, mesmo na melhor das intenções, em algum momento seremos vilões, da nossa ou da história de outras pessoas. Esforço-me para ser mais responsável com a minha, neste universo que, até onde sei, é o único que tenho disponível, e que se chama vida real. 

Adulta, procuro permanecer nutrindo a imaginação, mas agora sem me desconectar da realidade. Em vez de guardá-las na mochila, convivo, aceito e gosto das minhas inadequações e estranhezas. Transporto-as para a dura realidade das horas sempre que posso, expondo como ferida crua, como medalha conquistada em chão de fábrica, em campo de batalha.

Para o paralelo, aqui onde você me lê, deixo só o que posso formatar, imaginar, ressignificar, florear.

Gosto de pensar que vivo à lá Belchior, quando dizia que sua alucinação era suportar o dia a dia e o seu delírio era a experiência com coisas reais. 

Saiamos para ver e viver a vida. Eis que, sem isso, não há verso, nem reverso. Só esta existência basta. Guardemos no bolso a nostalgia das outras noventa e nove, em alusão a Sabino, mas saibamos redefinir a rota quando preciso. As noventa e nove não precisam ser sempre as mesmas noventa e nove.

Mais um ano chega ao fim. Por qual enredo passa a sua história a partir daqui?

Se você chegou até aqui, por favor, lembre de nunca cortar sua franja sozinha. Isso poupa desilusão em muitos multiversos.




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