terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Rebobinar

Para ler ao som de: Je te laisserai des mots - Patrick Watson

Martha Medeiros disse uma vez que queria uma primeira vez outra vez e ter sensações inéditas até o último de seus dias.

Eu quero que algumas sensações familiares se repitam, Martha.

Quero olhar para alguém sabendo de cara que Deus colocou os mesmos ingredientes na alma. Sim, dá pra saber só de olhar. De algum jeito a gente sabe, sente.

Quero o perfume inconfundível que só tem quem a gente ama. O cheiro da pontinha do nariz encostada na bochecha, exalando notas que só existem no caminho para o pescoço daquela pessoa. O abraço terno, quente, almofadado, firme, preenchido da ilusão de pausar o movimento de rotação da Terra.

Quero voltar a pisar no chão de ardósia da infância, que era frio, me cabia inteirinha esparramada e parecia ter o tamanho do mundo inteiro. A base de uma batedeira antiga, que já não funcionava mais, servia como porta giratória do banco que as bonecas visitavam para sacar seus salários. Quero lembrar de gargalhar fogos de artifício.

Quero voltar a fazer a rubrica perfeita, coisa que só parece possível de acontecer uma vez na vida inteirinha. Quero reescrever dedicatórias, bilhetes, notas, agendas, cartas, ocorrências, relatórios, redações, cartazes.

Quero rebobinar a fita de volta ao dia em que recusei aquele convite. Em que devolvi a arma. Em que abaixei a guarda. Em que lancei aquela bola. Em que vesti-me de paetês para perder o brilho. Em que se tirava foto sem saber como ela ia ficar.

Quero de volta o frescor da tarde mansa passando sem compromisso, com a minha orelha grudada em um Siemens A50 azulzinho, conversando todas as abobrinhas possíveis com amigas de longa data que tinham o plano Oi 31 anos. Aquela meia colorida até o joelho, cadê a coragem que me faltou para usar?

Quero quebrar a tartalete inteirinha, tirando as cascas, para comer só o meio, o recheio, a parte que importa. Quero amarrar outra vez os coturnos, conferir a munição, rezar a Oração de São Jorge antes de amanhecer o dia e me lembrar tão cruamente a sensação de ser mortal.

Quero sentir a pontada na lombar após um dia inteirinho pintando as paredes do quarto e fazendo tudo ao meu redor ter a minha cara estranha, absorta, encantada demais com o mundo que estava construindo só para mim. É tão bom não precisar provar nada para ninguém, enfim.

Quero de volta a sensação de ouvir a persiana tilintar sempre que o ventilador no três rodava em direção a ela e se misturava ao ritmo da música dos anos sessenta que eu ouvia enquanto escrevia sob a luz baixa. Esse universo, se existisse em algum lugar factível, caberia inteirinho ali.  

Quero me pendurar de novo no guarda-corpo da ponte e ter, por um milésimo de segundo, a certeza de que, sim, o abismo olha mesmo de volta para você. Quero pintar as unhas de vermelho rebu e me lembrar de como costumava ser linda, ainda que não soubesse.

Quero voltar e lembrar que é preciso sair de cena antes que a partida perca o sentido. Detectar o momento exato. Como uma fagulha. Saber a hora de queimar e apagar. Emudecer. Deixar-me ir. Largar a pedra que fazia de mim Sísifo. Voltar a olhar para as conchas de um jeito curioso. Ter permissão para recomeçar.

Sabe, Martha, eu quero reviver o abraço que dei na minha mãe no dia em que fui embora de casa. Aquele abraço de embargar a voz, a alma, o corpo inteiro, me disse que eu caberia ali pra sempre, mesmo que o mundo não me coubesse. Foi a primeira vez que acreditei no pra sempre depois de grande.

Ela me deu a bênção para viver todas as coisas novas, Martha.

E eu só quis reviver as antigas.

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