Nós não tínhamos intimidade alguma. Sempre te enxerguei como aquele colega de escola que estuda em outra turma, que a gente não conhece bem, não entende o que todo mundo vê nele, nunca sentou pra conversar junto e nem sabe explicar a razão pela qual se fala tanto dele.
Minha mãe sempre me dizia para acreditar que você queria o melhor para mim e semanalmente sentávamos à mesa para ler sobre você, celebrá-lo e dar as mãos, com os olhos fechados, repetindo versos que remetiam a tudo que você ensinava.
Mas eu não me sentia próxima.
Eu não falava de você, não te entendia, não podia nem afirmar que você existia. Foi assim durante muito, muito tempo.
Até que, como uma chave virando dentro da ignição, eu fui tocada. O motor ligou. Houve combustão. Algo adormecido em mim começou a acordar.
Foram muitas noites sozinha, no escuro, de joelhos. Não havia ninguém a quem eu pudesse recorrer.
O último para quem eu ligaria se tornou o primeiro.
A cabeceira da minha cama estava repleta de ti. Aquele livro empoeirado na minha mesinha começou a ser aberto. E durante alguns minutos eu tinha paz absoluta. Por alguns minutos havia sentido em existir.
Ainda não sei falar com você direito. Começo sempre na minha cabeça. Conversamos ao longo do dia. Conversamos sempre que vejo uma ambulância. Conversamos sempre que vejo as viaturas passarem. Conversamos por horas e horas, toda semana, nas minhas idas e vindas. Conversamos sempre que me lembro do quanto já fui - e sou, e posso continuar sendo - ruim, egoísta, difícil, pecadora, reclamona, soberba, arrogante, ingrata. Conversamos sempre que uso a memória para me desculpar por todas as vezes em que toquei a vida do outro de mau jeito. Por todas as vezes em que amei errado, em que supus o que não devia, em que quis tomar partido e me intrometer naquilo que era a sua vontade. Conversamos sobre tudo, sobre todos, sobre coisas que só dei a você o poder de conhecer. Conversamos aos prantos, aos risos, no silêncio, no escuro, quando nasce o sol no horizonte. Conversamos sempre que canto sobre você.
Você é calado, é certo.
Há poucos minutos conversávamos e eu lembrava de todas as pessoas e situações que já tentaram me apresentar a você antes. Debaixo das árvores, sentada em calçadas e ruas, em caminhadas, numa xícara de chá quentinho depois de muito choro, no escuro de um carro, no sinal da cruz ao passar pela igreja, na corrente que abraça meu pescoço, no altar que guarnece o quarto, nos animais que se aproximam sorrindo, na bênção ao chegar e sair, no que a ciência não explica.
Todos sabiam de algo que eu não sabia. Demorei para conhecer. Demorei para me deixar conhecer. Algo em mim não estava pronto. Algo em mim ainda se pergunta o que você continua fazendo aqui depois de conhecer tudo, revirar tudo, avaliar tudo.
Meu muro de tijolos erguido com tanto fervor ruiu em segundos.
No centro do meu coração há um prédio.
Naquela noite, ali se acendeu uma luz.
Que nunca mais apagou.
E desde então ela ilumina tudo.
E desde então você está em tudo.
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