Para ouvir ao som de: Simple Twist Of Fate - Bob Dylan
Hoje resolvi tentar algo diferente.
Abri minha caixa de pandora e tentei me curar de cada mal que ela guardava.
Havia cartas, bilhetes, chaveiros, guerras frias, fotografias, dores imensas, guardanapos, tickets de cinema, listas, promessas, dedicatórias, tropeços. Um compilado do que já se quis que desse certo.
Revisitei cantos da memória. Abri um portal que me transportou direto para uma sala branca, vazia. À minha frente só um retrovisor. A mim cabia apenas assistir cada lance do passado que ia sendo exibido, mas sem modificar, agarrar, retornar. Sem qualquer controle.
Uma parte de mim se sentiu afugentada; outra, dolorida. Uma outra se viu apegada a cada caquinho; outra, parecia reconhecer aquela história como a de algum personagem de novela. Não parecia ser a minha história.
Comecei a me perguntar em que momento algumas coisas pararam de funcionar e eu desisti de consertar. Em que momento promessas escritas com punho firme se dissiparam até que só restassem partículas invisíveis.
Você acorda um dia e mais de dez anos se passaram, as letras de uma banda de rock qualquer começaram a fazer sentido, você tenta se lembrar de quem foi, mas está entorpecido em memórias do que parecia ser. Apenas aqueles registros te lembram de quem você foi.
Fragmentos de pensamentos que não se encaixam.
Resolvi encarar o papel em branco, aqui, exatamente aqui, onde sempre confrontei meus fantasmas. Aqui onde sempre fiz questão de insistir em querer acreditar em coisas que talvez já não existissem.
E ainda não encontrei sentido.
Em algum momento de algum dia já tive certeza de que sempre existiria uma ponte para o passado. Achava que poderia atravessá-la e voltar ao exato segundo em que tudo era possível.
Vivi a olhar para esta ponte. Sabia o que havia do outro lado. Um rio imenso e caudaloso separava os dois lados, mas vez ou outra o que os aproximava parecia tão maior.
As águas de hoje não são mais as mesmas e é verdade que a ponte parece ter ruído.
Nem tudo resiste à ação do tempo, enfim. Nem pontes nem águas. De volta às margens do rio não cabe lamento. O único caminho é aprender a nadar. Não necessariamente para chegar ao outro lado da margem. Mas para curar. Para ser, eu mesma, a ponte que já não existe. Para que eu saiba me levar aos lugares que preciso ou quero ir. Para que eu saiba me perdoar por tudo que não sabia na época certa.
Há muita coisa que hoje sei e que poderia ter mudado o rumo da história. Teria mudado o rumo da história? Fiz um passeio em silêncio por ela. Há alguém lá. Mas não sei se sou eu. Eu gostaria que as peças tivessem sido movidas na direção e hora certas. Dizem que o meio do cubo mágico nunca muda. Aceito a sina. Tudo florescerá ao redor daquilo que não posso mudar.
Há um espaço vazio na sala branca com retrovisor. A fronteira entre o que inevitavelmente nos confronta com versões menos lapidadas de nós e o que nos conforta por que existiu. Ainda que a realidade me desminta, enxergo a semente. O relógio não me espera e eu vou.
Com os olhos à frente, mas carregada de tudo que já vi.
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