Elisa nasceu na primavera, época em que os ipês estão floridos por toda a parte. Não à toa, como as flores, ela desabrochou lentamente. Elisa foi uma criança curiosa, esperta, de olhos atentos para todos os cantos, como quem parecia não querer perder nada. Começou a falar cedo, mas era mais observadora que falante. Parecia usar a visão para catalogar tudo quanto pudesse e construir uma espécie de miscelânea interior, um acervo próprio ao qual, ao longo da vida, pouca gente teve acesso de verdade.
Introspectiva e de poucos amigos, Elisa fazia questão de não ser notada. Não era tímida, exatamente. Se virava muito bem em todos os círculos, sabia conversar sobre tudo, mas vivia com a sensação de não pertencer a lugar algum. Seu verdadeiro refúgio era o Lago das Graças, especificamente uma de suas bordas, a mais remota e difícil de acessar e, consequentemente, a menos frequentada - exatamente o motivo pelo qual era seu lugar favorito no mundo.
O Lago das Graças tinha esse nome porque, muito antes de se incorporar ao parque, o local era frequentado por mulheres lavadeiras que cantavam enquanto batiam as roupas contra as pedras e enchiam baldes para levar água para casa. Conta a história que uma dessas mulheres, com seus quarenta e poucos anos, mediana em tudo o que se pode ser mediano, conversava com o lago. Em uma dessas conversas, a mulher teria ouvido que ele poderia realizar o mais profundo desejo de sua alma. A mulher, no entanto, esperava há tanto tempo pelo que queria que já não sabia mais se, com sua idade e saúde, seria possível obtê-lo e nem mesmo se arriscava a confessar para mais ninguém, além de si mesma, o que pedia seu coração.
Um dia, após conversar com o lago e obter a promessa de que ele realizaria esse desejo, a mulher se descobriu grávida. Ela geraria o primeiro e único filho, de forma natural, após ser diagnosticada como infértil há quinze anos. A criança, meses depois, foi batizada à beira do lago e considerada um milagre pela. Desde então, outras histórias começaram a surgir, todas envolvendo o lago que escuta seu grande desejo e o realiza. Com o tempo, as graças ficaram famosas na região, dando ao lago o nome que carrega hoje.
Em anos frequentando o lugar, Elisa havia visto pouquíssimas vezes pessoas na borda Leste, geralmente pesquisadores colhendo amostras de água ou fotografando animais. Era ali, no meio do “nada”, que ela estendia sua manta, deitava de barriga para cima e lia seus livros por horas a fio. Não entendia nada de constelações, mas acreditava que as estrelas eram capazes de ouvi-la. Acreditava que o lago, como na história que deu origem a seu nome, também falaria com ela um dia. Bastava que descobrisse qual era o grande desejo de sua alma, aquele que a faria desejar tão fortemente a realização a ponto de o lago ouvir seu clamor.
Parecia um lugar mágico, mesmo para quem não acreditava em lagos falantes. As árvores eram frondosas, altas, entrelaçavam-se em suas copas e formavam o clima perfeito para um dia ao ar livre. O vento era sereno, sussurrava, e a umidade adentrava cada fio de cabelo de Elisa sempre que ela perdia a noção da hora, coisa que era comum. A proximidade de casa e a atmosfera remota tornavam a combinação perfeita para fugas constantes até o lago.
Embora tenha se habituado a crescer sozinha, a observar a vida e o universo como quem analisa uma obra de arte num museu (perto o bastante para admirar, longe o suficiente para não tocar), Elisa sabia que faltava alguma coisa nela ou, talvez, no mundo como ela o conhecia. Embora não soubesse precisar o que era, sabia que tinha a ver com algo que não encontraria sozinha.
Na última semana, ela visitou o lago todos os dias, atirou pedrinhas nele, conversou com os pássaros e leu dois livros inteiros. As férias estavam acabando, e logo mais ela começaria em uma escola nova. Elisa gostava de algum grau de previsibilidade e não sabia bem o que esperar do lugar novo, embora não pudesse fazer nada a respeito disso naquele momento. Eu sei o que você está pensando e, sim, é o que parece: coisa de alguém cronicamente ansioso. Elisa gostava de antecipar cenários, criar roteiros alternativos e brincar de viver no mundo da lua. Era completamente desinteressada pela vida alheia, exceto pelas cenas do cotidiano, as quais gostava de observar. Era imaginativa ao extremo, vivendo para reconstruir o final dos livros que lia e não aprovava o desfecho, catalogar pensamentos e construir seu “caderno do repertório”, apelido carinhoso de um caderninho surrado que carregava para todos os lugares.
Naquela segunda-feira, quando levantou cedo e se vestiu, Elisa não imaginava o que estaria por vir. Ninguém vê milagres no cotidiano tão bem quanto ela, e nem mesmo assim conseguiu percebeu o exato segundo em que o efeito borboleta começou.
Um corredor. Um par de olhos negros.
Aqui a verdadeira história começa.
(...)
Continua.
Ou não.
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