Sua imagem é vívida na minha imaginação como gota de chuva escorrendo pelo vidro da janela, como orvalho na manhã de um dia frio. Minha consciência passeia te vendo em cada música romântica que toca no rádio, em cada mão que percorre o corpo devagar, tateando o arrepio em braile, em cada punho cerrado após um beijo quente.
Minha inquietude sobrevoa seu olhar estático e sombrio, sem rota e sem rumo, feito eu quando me perco de você. As manchetes dos jornais anunciam que nosso amor deixou de ser novidade. E eu insisto em conspirar que os jornais só existem para profetizar o mal agouro de quem é feliz. Nosso amor vai ser sempre primeira página estampada na minha memória; vai ser sempre o número um do pódio; vai ser sempre corda vocal que falha ao dizer que te amo; vai ser sempre mão trêmula ao desatar da sua, ao me despir, ao reconhecer o terreno do seu corpo, ao mapear seus instintos.
Não dá pra te esquecer, não sem dor, não sem pesar. Não dá pra te transformar numa mera abstração a vagar pelo esquecimento em alguma gaveta empoeirada da minha memória. O amor, quando se perde do carinho, se transforma em teimosia e vai empurrando devagarinho as alegrias pra debaixo do tapete. Quando se percebe, já passou o dia, o mês, o ano, a vida inteira e o jeito manso de olhar a biografia do outro já saiu pela porta que ficou aberta quando o bem-querer também resolveu pedir passagem - só de ida.
Espero contar com seus olhos sempre dispostos a retirar a palidez do meu rosto com sussurros. Espero que nossa felicidade seja durável, tal qual um comprimido de liberação prolongada que faz a gente esquecer a dor por horas a fio. Desejo parcelar o nosso amor em tantas prestações quantas caibam nessa vida, só pra te ver perder a linha comigo, respirar inebriado a leveza de caber no meu abraço. Quero enrolar meus pés frios nos teus pés quentes debaixo do cobertor e transferir pro seu corpo cada grau celsius a tornar mais fria do que deveria a minha pele quando está do seu lado. Quero desafiar a lógica do relógio quando chegar a hora de levantar da cama, te fazendo ficar só um pouco mais, só um cafuné a mais, só um beijo a mais, um atrás do outro, numa sequência interminável de últimas vezes, porque nenhum tempo é demais quando anos a fio - vidas, eu diria - já se passaram sem que eu pudesse desfrutar de você.
Quero dizer em bom tom e claro português que você é a minha frase sem ponto final, minha rodovia sem placas, meu espaço aéreo sem torre de controle.
Não quero ter limites do seu lado.
Quero nós.
Desatados.
A sós.
Desvairados.
A correr.
E deitar.
E rolar.
Pela vida...
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