quinta-feira, 16 de novembro de 2017

VIGÍLIA

A maior prova de fogo pra um relacionamento é saber que existem opções. Mas não qualquer opção. Precisa ser uma opção daquelas contundentes. Um cara que te pegue de jeito, mas também abra a porta do carro pra você entrar. Ou uma mulher que vire teu mundo de ponta cabeça toda vez que te beija, mas que tenha domínio pra falar sobre qualquer assunto com uma naturalidade que ninguém acredita. Ou um modelo recém lançado de automóvel que traz, além de todos os itens de série, um bocado de apetrecho tecnológico quentinho da fábrica.

Falo de opções verdadeiramente palpáveis, do tipo que o santo bate, que o pescoço arrepia, que a conversa flui por horas, que faz os olhos brilharem ou esvaziam a carteira em pensamentos. A opção que encaixa é que é o problema. Opção por opção não intimida ninguém porque pra qualquer um sempre tem um open bar de gente interessada, de objeto à venda, com um cardápio variado de opções que vai desde depositar carências até abastecer o ego. Mas opção de verdade, dessas que causam reviravoltas na vida, há poucas, e essas são o verdadeiro teste.

Geralmente a pessoa perfeita aparece disfarçada de opção. Ela tem um tique charmoso que só ela tem e um perfume que não desgruda da pele nem por reza braba. Ela sabe de cor todos os trechos do seu livro favorito e é capaz de recitar o nome de todos os jogadores que estavam em campo quando a seleção brasileira ganhou o título mundial de 1970. Ela tem uma desenvoltura na cama que não se compara a nenhuma outra amante, mas é incrivelmente dócil quando se aconchega no teu peito e te pede pra ficar. Ela sabe o que quer, mas não disfarça o ímpeto de te deixar decidir se ela fica melhor à meia luz ou banhada por um fim de tarde.

Geralmente a situação perfeita aparece disfarçada de opção. Carro do ano, zero km, na cor dos seus sonhos, com bancos de couro, motor robusto e disposição pra fazer um sem-número de km com aquele litrinho inocente de gasolina. Um emprego fenomenal que paga bem, fica perto da sua casa e te permite trabalhar só com o que gosta. A viagem com tudo pago sem turbulências no avião ou enjoo no barco, sem hotel meia boca e sem surpresas com a comida.

A opção é, na verdade, a sua insegurança gritando alto no peito. A insegurança que diz que você mudou, ou que teu alguém mudou, ou que o mundo mudou, ou que a vida mudou o bastante pra reorganizar prioridades, reciclar desejos, tirar as coisas do lugar. Você espera pela absolvição que vem a galope na garupa dessa opção que parece ter aparecido pra responder a todos os seus questionamentos. A opção parece ser o tiro que acertou teu peito, mas a realidade dos dias - acumulada sob uma espessa camada de poeira na estante - pode demonstrar que não passou de uma bala de raspão.

A opção existe porque algo em você grita por mudança. Algo em você permitiu que o novo ganhasse espaço, respeito, afeto. Algo acha que o original já perdeu valor de mercado e que, nesse mundo de hoje, com opção pra tudo, é burrice estacionar no modelo do ano passado.

É essa busca desenfreada por algo que vai preencher todas as lacunas que rouba da gente, devagar e quase sempre, um pouco da esperança, da vitalidade, da leveza. Leva nossa capacidade de se surpreender, de estar atento, de sorrir por pouca coisa. É assim que a gente deságua na saudade do que ainda nem chegou, porque é preciso estar sempre na crista da onda pro que quer que seja. É preciso ser sempre o primeiro. É preciso manter todas as opções em aberto. 

Afinal, vai que uma delas muda tua vida.

Ou, vai que, nessa intensa onda de mudar, você se muda da vida sem nada deixar.


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