quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

RECOMPOR

Um breve adendo:
minha mãe sempre advertiu: não perca os dentes com as cáries que já curou.

Madrugada à meia luz, somente a claridade dos postes da cidade combinam com o meu brilho incandescente. O ronco do motor anuncia minha passagem por cada canto da cidade que eu procuro para me esconder da triste euforia de estar tão evidentemente perdida de mim.  No escuro da noite, busco esconder a todo custo a fragilidade que carrego no peito. Jogo por cima da camiseta um moletom velho e encardido das lágrimas que derramei por algum ex-amor e saio em disparada, deixando cair as chaves e os cacos da minha lucidez.

Nenhum caminho é longe demais quando a gente não sabe pra onde vai e, pior ainda, não quer nem saber. Toda rua é chegada, toda saída é partida, toda curva é meia volta pro ponto de onde a gente acha que saiu. Ah, se as respostas estivessem nas esquinas como as placas de trânsito anunciando que é proibido contornar. Ninguém te avisa dos becos sem saída que você se mete na vida. Ninguém te prepara pras encruzilhadas da rodovia ou pro ardor de uma frenagem forçada.

O sentido do ir e vir ganha outra conotação quando a busca é por algo que você perdeu no meio do caminho. Não encontrar é, por definição, fracassar. E encontrar aquilo que se procura pode ser tão aterrorizante quanto não enfrentar. 

Olho pelo retrovisor para me certificar de que algo ficou para trás, ainda que seja preciso reconhecer que esse algo é muito de mim. Melhor assim. Enxugo as lágrimas, reforço o rímel, aparo os pés no carpete que também ampara e aplaca as dores que expulso de mim. Invoco a ira de me sentir tão nula diante do que me faz mal. Provoco incêndios que sequer sou capaz de conter. Abasteço, compro um maço de cigarros e amaldiçoo um a um, como quem pretende se desfazer do que nunca foi.

Na rodovia, a sinalização diagnostica o fim da linha. Dali para frente é só retorno. Não há para onde ir senão retornar. E então faz todo o sentido do mundo o eterno retorno apregoado por Nietzsche. A alternância de polos, a cíclica repetição da vida é - mesmo custando reconhecer -, ao mesmo tempo, cura e fonte de todo o mal. 

A continuidade é, por imperativo ou opção, a única chancela dada pelo destino a quem padece de algum mal. É o mertiolate na ferida de quem sente dor. O belo e o feio, a alegria e a tristeza, a agonia e o prazer, tudo vai. E volta. E fica o tempo necessário para ensinar lições que custamos a aprender quando não há pedra no sapato ou moeda no ar. O deleite é página da qual também faz parte o sofrimento e só se partilha verdadeiramente do bom combate aquele que suportou as lutas que dele advém.

A ampulheta da vida é a rodovia mais implacável até nosso destino e repousa silenciosa sob uma fina camada de poeira que depositamos todos os dias, inocentemente, sobre o tempo.

Hei, mãe, de suportar novas cáries no coração e na alma, meus dentes hão de se indignar ainda uma centena de vezes se preciso for, mas meu consolo nisso tudo, mãe, é que não hei de perder o riso amarelo, incontido. Minha fratura exposta, minha cicatriz, meu medalhão consagra: sobrevivi. E vivi. E hei de assim permanecer enquanto tiver pelo que me recompor.

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio..." (A Gaia Ciência)




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