Para ler ao som de: The Fray - Heartless
Quero assentar em nós aquilo que
o poeta chamou de “sagrado instinto de não ter teorias”. Quero não ter teorias
com você, não fazer planos com você, voltar atrás em cada certeza, uma a uma, com
você. Quero não ter compromisso com o erro, quero não me preocupar com desgastes
porque a leveza do nosso amor não nos permite repousar sobre a complexidade que
é se perder um do outro. Quero me desfazer de todos os meus segredos. Quero desmascarar a farsa dos amores pesados e
descomplicar que amar é viver repleto de dúvidas. Quero partilhar dos teus
esconderijos mais secretos, atravessar desertos inteiros apenas com as doces
notas da saliva do teu beijo, mas para que assim seja, preciso de trégua.
Trégua da sua fuga, de toda vez que
você corre de mim e não me procura pra me achar. Trégua das lágrimas que você
compartilha com o travesseiro mas esconde do meu ombro, me privando de saber
sobre você. Quero trégua de todas as vezes que você pensa em desistir de mim, que
pensa que a gente não cabe um no outro, ou juntinhos em algum lugar. Quero
trégua de ter que te procurar toda vez que você não me procura pra dizer que eu
quero continuar sabendo que a sua mão vai repousar sob a minha toda vez que a
barra pesar. Quero trégua do cansaço de achar que alguém precisa prevalecer, de
todas as fichas e estratégias que você investe jogando sozinho.
Não estou interessada, amor, no
tumulto das fugas, na rivalidade, em tratar a aproximação como uma religião:
cheia de dogmas, ritos e liturgias. Não me interessa estar no controle.
Aproximação é sentido adormecido, vontade que o peito grita, desejo de permanecer
e só. Aproximação é coisa natural que a gente sente e não evita porque sabe que
o rubor das maçãs do rosto há de denunciar, porque as mãos trêmulas hão de
trepidar sobre as certezas e porque a vontade de ficar vai arrumar um jeito de
transparecer pro outro.
Me dá bandeira branca. Fica se
quiser ficar. Mas se for embora, de todas as maneiras entre as quais se pode
ir, me dá um abraço e cuida da tua direção. Me deseja sorte, mas não leva a
minha. Abdica de mim por completo, e não leva um pedacinho meu sequer contigo. Pega os teus
sapatos, os teus percalços, os teus pertences, e deixa só o que combina com
aquela música boa que passa na rádio toda vez que a gente se beija no domingo
de manhã, deixa só o que há de bom em nós.
Vou te guardar como vórtice, como
espiral das minhas tempestades, torcendo pra que, como boa marinheira, eu
reencontre o caminho das águas calmas distante do teu porto. Bandeira branca a
meio mastro fincada no esteio anuncia o fim do nosso amor.
Ou vai ver, na verdade, ela será
a vela capaz de guiar o meu barco de volta pra casa.
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